HC 1070926/RS (2026/0035552-4)RELATOR:MINISTRO JOEL ILAN PACIORNIKIMPETRANTE:DEFENSORIA PÚBLICA DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SULADVOGADO:DEFENSORIA PÚBLICA DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SULIMPETRADO:TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SULPACIENTE:JOECIR DE MOURAINTERESSADO:MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
DECISÃO
Trata-se de habeas corpus, com pedido liminar, impetrado em benefício de J DE M, contra acórdão proferido pelo TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL no julgamento da Apelação Criminal n. 5001363-05.2024.8.21.0011/RS.
Extrai-se dos autos que o paciente foi condenado à pena de 33 anos e 10 meses de reclusão, no regime inicial fechado, e 10 meses de detenção, e ao pagamento de 30 dias-multa, pela prática dos crimes tipificados no art. 121, §2º, incisos I, III, IV e V, e §4º, c/c o art. 65, inciso III, alínea "d", ambos do Código Penal - CP (1º fato); art. 155, §§ 2º e 4º, inciso I, na forma do art. 14, inciso II, ambos do CP (2º fato), art. 213, caput, do CP (3º fato), com incidência da agravante prevista no art. 61, inciso II, alínea "h", do CP, bem como do art. 347, parágrafo único, do CP (4º fato), todos na forma do art. 69, caput, do CP.
O Tribunal de origem negou provimento ao recurso da defesa e deu parcial provimento à apelação interposta pelo Parquet estadual, para elevar a pena do paciente ao patamar de 47 anos, 11 meses de reclusão, e 10 meses de detenção, mantidos os demais termos da sentença. Confira-se a ementa do julgado (fl. 16):
"APELAÇÃO CRIMINAL. TRIBUNAL DO JÚRI. HOMICÍDIO QUADRUPLAMENTE QUALIFICADO, TENTATIVA DE FURTO QUALIFICADO, ESTUPRO E FRAUDE PROCESSUAL. CONDENAÇÃO PELO CONSELHO DE SENTENÇA. INSURGÊNCIAS DEFENSIVA E MINISTERIAL. PRELIMINAR DE NULIDADE AFASTADA. DECISÃO DOS JURADOS QUE ENCONTRA AMPARO NA PROVA DOS AUTOS. SOBERANIA DOS VEREDITOS. DOSIMETRIA DA PENA. RECURSO MINISTERIAL PARCIALMENTE PROVIDO PARA EXASPERAR A PENA-BASE DO CRIME DE HOMICÍDIO. PLURALIDADE DE QUALIFICADORAS. UTILIZAÇÃO DAS EXCEDENTES COMO AGRAVANTES. CONFISSÃO QUALIFICADA E PARCIAL QUE AUTORIZA COMPENSAÇÃO NÃO INTEGRAL. PENA DO HOMICÍDIO REDIMENSIONADA. PENAS DOS DELITOS CONEXOS MANTIDAS. SOMATÓRIO DAS PENAS EM CONCURSO MATERIAL. PENA FINAL MAJORADA. PEDIDO DE INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS INDEFERIDO POR AUSÊNCIA DE PEDIDO EXPRESSO NA DENÚNCIA. REGIME INICIAL FECHADO MANTIDO. APELO DEFENSIVO DESPROVIDO E APELO MINISTERIAL PARCIALMENTE PROVIDO." (fl. 16)
Os embargos de declaração opostos pela defesa foram rejeitados (fl. 20).
No presente writ, a defesa insurge-se contra a incidência da causa de aumento de pena prevista no art. 121, §4º, do CP, que não teria sido articulada durante os debates em plenário, mas apenas nas razões de apelação, em afronta aos princípios da correlação e do contraditório.
Requer, em liminar e no mérito, a concessão da ordem para que a pena do paciente seja redimensionada, afastando-se a causa de aumento de pena do art. 121, §4º, do CP.
É o relatório.
Decido.
O presente writ, conquanto impetrado por profissional legalmente habilitado, está deficientemente instruído, não se verificando cópia do inteiro teor do ato coator (acórdão impugnado).
A despeito das razões delineadas na inicial, cabe ressaltar que, em razão da celeridade do rito do habeas corpus, incumbe ao impetrante apresentar prova pré-constituída do direito alegado, sob pena de não conhecimento da ação. Nesse sentido, confiram-se os seguintes precedentes (grifos nossos):
AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. TRIBUNAL DO JURI. INSURGÊNCIA DEFENSIVA EM FACE DA SENTENÇA DE PRONÚNCIA. AUSÊNCIA NOS AUTOS DO INTEIRO TEOR DO ACÓRDÃO DE ORIGEM. COMPREENSÃO DA CONTROVÉRSIA IMPOSSIBILITADA. INSTRUÇÃO DEFICIENTE DO WRIT. POSTERIOR PERDA DO OBJETO. INFORMAÇÃO DE SUPERVENIÊNCIA DA CONDENAÇÃO PERANTE O CONSELHO DE SENTENÇA. PREJUDICADO. SÚMULA 182/STJ. AGRAVO DESPROVIDO.
I - Nos termos da jurisprudência consolidada nesta Corte, cumpre ao agravante impugnar especificamente os fundamentos estabelecidos na decisão agravada.
II - No caso concreto, como já decidido pela Relatoria anterior, não existia nos autos sequer o inteiro teor do acórdão do Tribunal de origem apontado como ato coator - o que, como já explicado, não permitiu a exata compreensão da controvérsia, por deficiência de instrução.
III - Assente nesta Corte Superior que, "Identificada a falta de juntada aos autos do acórdão da Corte Estadual que efetivamente abordou o mérito constante no presente habeas corpus, resta evidenciada instrução deficiente a impedir continuidade na análise do pleito liberatório" (AgInt no HC n. 388.816/MA, Sexta Turma, Rel. Min. Nefi Cordeiro, DJe de 13/6/2017).
IV - Ainda que assim não fosse, como destacado pelo próprio agravante, houve a superveniência de sua condenação perante o Conselho de Sentença (fl. 558). Diante disso, fica prejudicada a insurgência defensiva no presente writ em face da sentença de pronúncia, pela perda superveniente do objeto.
V - A jurisprudência deste Tribunal Superior é firme no sentido de que "O recurso contra a decisão que pronunciou o acusado encontra-se prejudicado, na linha da jurisprudência dominante acerca do tema, quando o recorrente já foi posteriormente condenado pelo Conselho de Sentença' (AgRg no AREsp n. 1.412.819/SP, Quinta Turma, Rel. Min. Ribeiro Dantas, DJe 17/8/2021)" (AgRg no HC n. 693.382/PE, Quinta Turma, Rel. Min. Jesuíno Rissato, Des. Convocado do TJDFT, DJe de 28/10/2021). No mesmo sentido: HC n. 384.302/TO, Quinta Turma, Rel. Min. Ribeiro Dantas, DJe de 9/6/2017; RHC n. 63.772/SP, Sexta Turma, Relª. Minª. Maria Thereza de Assis Moura, DJe de 25/10/2016; RHC n. 102.607/ES, Quinta Turma, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, DJe de 14/2/2019; e AgRg no HC n. 699.552/RS, Quinta Turma, Rel. Min. Ribeiro Dantas, DJe de 2/3/2022.
VI - No mais, os argumentos atraem a Súmula n. 182 desta Corte Superior de Justiça.
Agravo regimental desprovido.
(AgRg no HC n. 698.005/PE, relator Ministro Messod Azulay Neto, Quinta Turma, julgado em 20/6/2023, DJe de 29/6/2023.)
AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. MANDAMUS INDEFERIDO LIMINARMENTE. INSTRUÇÃO DEFICIENTE. NÃO COLACIONADA A ÍNTEGRA DO ACÓRDÃO DE APELAÇÃO. DECISÃO MANTIDA. RECURSO IMPROVIDO.
1. É dever do impetrante instruir o writ com os documentos necessários ao deslinde da controvérsia, de modo que a falta da íntegra do ato coator torna inviável a análise dos pedidos.
2. É insuficiente a juntada apenas da ementa e do resultado dos julgamentos das decisões impugnadas. Os acórdãos, apontados como atos coatores, devem ser colacionados na íntegra.
3. Agravo regimental improvido.
(AgRg no HC n. 790.533/SC, relator Ministro Jesuíno Rissato (Desembargador Convocado do TJDFT), Sexta Turma, julgado em 17/4/2023, DJe de 20/4/2023.)
Ante o exposto, com fundamento no art. 210 do Regimento Interno do Superior Tribunal de Justiça, indefiro liminarmente o presente habeas corpus.
Publique-se.
Intimem-se.
Relator
JOEL ILAN PACIORNIK