Processo judicial
Superior Tribunal de Justiça
Possivelmente o mesmo caso em outras instâncias, com partes em comum.
2026
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CC 207930/MG (2024/0330651-3)RELATORA:MINISTRA DANIELA TEIXEIRASUSCITANTE:USINA SACRAMENTO LTDA - EM RECUPERACAO JUDICIAL EM RECUPERACAO JUDICIALSUSCITANTE:BRUNO TENORIO DE AMORIMSUSCITANTE:DENISON COSTA DE AMORIM FILHOSUSCITANTE:MARLA TENORIO DE AMORIM LOUREIROSUSCITANTE:AGRO PECUARIA OLIVAL TENORIO LTDAADVOGADOS:LUIZ CARLOS BARBOSA DE ALMEIDA - AL002810ÁTILA PINTO MACHADO JÚNIOR - AL006123GUSTAVO MARTINS DELDUQUE DE MACEDO - AL007656SUSCITADO:JUÍZO DE DIREITO DA 2A VARA CÍVEL, CRIMINAL E DE EXECUÇÕES PENAIS DE SACRAMENTO - MGSUSCITADO:JUÍZO DA 4A VARA DO TRABALHO DE UBERABA - MGINTERESSADO:CLAUDIO SIMAOADVOGADOS:CLEBER DE ALCANTARA CHAGAS - MG104300NAYARA NAISE SOARES DE CASTRO - MG141176
DECISÃO
Tendo em vista as orientações e valores destacados no Pacto Nacional do Judiciário pela Linguagem Simples, o qual está pautado em instrumentos internacionais de direitos humanos e de acesso à Justiça, adoto o relatório de fls. 323-325 (e-STJ):
Cuida-se de conflito de competência suscitado por Usina Sacramento Ltda. - em recuperação judicial - e outros, apontando como suscitados o Juízo de Direito da 2ª Vara Cível, Criminal e de Execuções Penais de Sacramento/MG e o Juízo da 4ª Vara do Trabalho de Uberaba/MG.
Relatam, em síntese, que "em 18/07/2014,no processo nº 0011079- 60.2014.5.03.0168, o ex-empregado CLAUDIO SIMAO promoveu reclamação trabalhista em face da USINA SACRAMENTO LTDA (“USINA SACRAMENTO”), sua ex-empregadora, para demandar verbas trabalhistas devidas por ter trabalhado para no período de 01/11/2010 a 30/04/2014" (e-STJ, fl. 4).
Informam que houve sua condenação, mas "ainda no curso do processamento daquela ação trabalhista e, sobretudo, ainda antes do pagamento da dívida, sobreveio o processamento da Recuperação Judicial da USINA SACRAMENTO, cujo pedido fora feito em 25/02/2015, e que tramita no processo nº 0004160.51.2015.8.13.0569 perante o Juízo de Direito da 2ª Vara Cível, Criminal e de Execuções Penais da Comarca de Sacramento-MG" (e-STJ, fls. 4-5).
Diante disso, houve a concessão da recuperação judicial pelo Juízo do soerguimento em 14/12/2016, o que foi confirmado pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais em 2/2/2018.
Posteriormente, diante da "necessidade de modificar o PRJ em relação ao adimplemento dos créditos concursais da classe dos titulares de créditos derivados da legislação do trabalho ou decorrentes de acidentes de trabalho (Classe I), foi convocada pelo Juízo nova Assembleia Geral de Credores (AGC) para deliberar sobre o 'Primeiro Aditivo do Plano de Recuperação Judicial (PRJ)'" (e-STJ, fl. 5), o qual foi aprovado pela Assembleia Geral de Credores, em 10/12/2018.
Houve o cumprimento do aludido aditivo, havendo a disponibilização dos recursos necessários para o pagamento dos credores trabalhistas, aplicando-se as equalizações e deságios previstos em razão da novação dos créditos, e a expedição dos respectivos alvarás de levantamento.
Alegam que "o credor CLAUDIO SIMAO, reclamante do processo trabalhista objeto deste Conflito de Competência, por exemplo, com a aplicação das equalizações e deságios previstos, teve seu crédito novado para o valor de R$ 4.706,86e recebeu exatamente este mesmo valor através do saque do alvará expedido pelo Juízo Recuperacional" (e-STJ, fl. 6), motivo pelo qual o Juízo da recuperação declarou o cumprimento do plano de recuperação judicial e seu aditivo em relação aos créditos trabalhistas.
Entretanto, "disse o Juízo Trabalhista que o valor pago na Recuperação Judicial, porque sofreu deságio (desconto), não quitaria o valor original do crédito trabalhista, desprezando, portanto, a novação ocorrida. Assim, decidiu o Juízo Trabalhista que o valor pago na Recuperação Judicial serviria apenas para 'abater' o valor original do crédito trabalhista, de modo que aquele Juízo Trabalhista se averbou competente para continuar a execução do que seria um suposto 'valor remanescente' do crédito" (e-STJ, fl. 7).
Ademais, o Juízo laboral determinou a desconsideração da personalidade jurídica da suscitante, direcionando a execução contra os seus sócios, bem como manteve os demais corresponsáveis no polo passivo para cobrança do "valor remanescente" do crédito.
Postulam, assim, a concessão de liminar para que se determine a imediata suspensão da execução trabalhista e o desfazimento dos atos constritivos ou expropriatórios tomados pelo Juízo laboral, e, no mérito, seja conhecido o incidente para declarar a competência do Juízo da recuperação para deliberar sobre qualquer medida executiva contra a recuperanda.
O pedido liminar foi deferido (e-STJ fls. 323-327).
Informações pelos suscitados às fls. 335-342 e 343-344 (e-STJ).
O Ministério Público Federal se manifestou pelo não conhecimento do conflito de competência (e-STJ fls. 346-349).
É o relatório.
DECIDO.
O presente conflito versa matéria repetitiva, decidida em diversos incidentes que versaram a mesma matéria, motivo pelo qual passo à sua resolução meritória.
Dispõe o art. 105, I, d, da CRFB/88 que "Compete ao Superior Tribunal de Justiça: I - processar e julgar, originariamente (...) d) os conflitos de competência entre quaisquer tribunais, ressalvado o disposto no art. 102, I, "o", bem como entre tribunal e juízes a ele não vinculados e entre juízes vinculados a tribunais diversos".
O Juiz natural é garantia constitucional das partes, expressa no art. 5º, inciso LIII, da Constituição Federal, que dispõe que “ninguém será processado nem sentenciado senão pela autoridade competente”.
Nos termos do art. 66 do Código de Processo Civil, há conflito de competência quando dois ou mais juízes se declaram competentes, quando dois ou mais juízes se declaram incompetentes, atribuindo um ao outro a competência, ou quando surge controvérsia acerca da reunião ou separação de processos entre dois ou mais juízes.
O entendimento consolidado do Superior Tribunal de Justiça é de que “Para se caracterizar o conflito de competência, é necessária a manifestação expressa de dois ou mais juízos que se considerem competentes, ou incompetentes, para processar e julgar a mesma demanda. Desserve ao fim de sanear toda e quaisquer questões conflitantes em um processo.” (AgInt no CC n. 206.377/SP, relator Ministro João Otávio de Noronha, Segunda Seção, julgado em 29/10/2024, DJe de 5/11/2024.).
Nos termos do art. 59 da Lei 11.101/05, a homologação do plano de recuperação judicial acarreta a novação das obrigações anteriormente assumidas pelo devedor, que se extinguem e são substituídas por aquelas estipuladas no referido plano.
Além disso, o art. 49 da mesma Lei dispõe que “estão sujeitos à recuperação judicial todos os créditos existentes na data do pedido, ainda que não vencidos”, o que permite concluir que a sujeição de determinado crédito ao processo recuperacional independe de decisão judicial prévia ou contemporânea ao ajuizamento, bastando que decorra de obrigação constituída em momento anterior.
Dessa forma, esta Corte tem assentado o entendimento de que o crédito oriundo de atos praticados antes do pedido de recuperação judicial - e, por isso, de natureza concursal - deve ser adimplido na forma prevista no Juízo universal, ainda que a sentença condenatória tenha sido proferida posteriormente.
Quanto a forma de apuração de natureza do crédito, a questão restou pacificada, inclusive, em regime repetitivo, conforme teor da tese firmada no Tema 1051: "Para o fim de submissão aos efeitos da recuperação judicial, considera-se que a existência do crédito é determinada pela data em que ocorreu o seu fato gerador."
Diante de tais orientações, observa-se que a determinação do juízo trabalhista suscitado, no sentido de que haveria crédito remanescente a despeito do pagamento realizado em cumprimento do plano, destoa da jurisprudência desta Corte, conforme pontuado pelo Ministro Marco Aurélio Bellizze no CONFLITO DE COMPETÊNCIA Nº 205557 - MG, "verbis":
O incidente merece ser conhecido para o fim de se declarar a competência do juízo da recuperação judicial.
Com efeito, o art. 59 da Lei n. 11.101/2005, de maneira expressa, determina que "o plano de recuperação judicial implica novação dos créditos anteriores ao pedido, e obriga o devedor e todos os credores a ele sujeitos, sem prejuízo das garantias, observado o disposto no § 1º do art. 50 desta Lei".
Uma vez aprovado o plano de recuperação judicial pela assembleia de credores, com a correlata homologação judicial, os créditos concursais haverão de ser pagos nos exatos termos nele estabelecido.
Dessa forma, não se admite, paralelamente à recuperação judicial, a efetivação de atos constritivos no bojo de execução individual levado a efeito por credor concursal, sob pena de indevida usurpação da competência do Juízo recuperacional e, em detrimento dos demais credores de mesma classe.
Nesse sentido, os seguintes julgados:
(...)
Portanto, havendo a aprovação do plano de recuperação e o seu cumprimento estrito, não podem os credores prosseguirem nas demandas originárias para que haja o pagamento de suposta verba remanescente, sob pena de se desvirtuar o espírito e a finalidade da recuperação judicial, desprezando-se toda a sistemática por ela implementada, ignorando-se o fato de que o crédito anterior foi novado conforme determina a lei.
(...)
Desse modo, ressai indevida a continuidade da execução trabalhista referente a crédito novado e aparentemente quitado, bem como o redirecionamento desse feito executivo contra os sócios/acionistas da recuperanda Usina Sacramento Ltda., a partir dos fundamentos acima delineados, a preponderar a competência do juízo recuperacional. (Grifos Acrescidos)
Com efeito, havendo a inclusão dos créditos no plano aprovado e sua quitação na forma avençada, não se mostra adequado o prosseguimento da execução para apuração de valor suplementar ou residual.
Nesse sentido:
DIREITO PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO INTERNO NO CONFLITO DE COMPETÊNCIA. EXECUÇÃO TRABALHISTA. CRÉDITO CONCURSAL. CLÁUSULA EXTENSIVA DO PLANO DE RECUPERAÇÃO. INCIDENTE DE DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA. COMPETÊNCIA DO JUÍZO RECUPERACIONAL. AGRAVO INTERNO DESPROVIDO.
I. CASO EM EXAME
1. Agravo interno interposto contra decisão monocrática que, ao conhecer do conflito de competência, declarou a competência do Juízo de Direito da 2ª Vara Cível, Criminal e de Execuções Penais de Sacramento/MG para deliberar sobre o crédito exigido na reclamação trabalhista em trâmite no Juízo da 1ª Vara do Trabalho de Uberaba/MG, bem como sobre os atos constritivos ali determinados.
II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO
2. A questão em discussão consiste em definir a competência para processar e julgar atos constritivos relacionados a crédito trabalhista supostamente novado por plano de recuperação judicial aprovado e homologado, com cláusula de vedação de execução contra os sócios.
III. RAZÕES DE DECIDIR
3. A jurisprudência consolidada do STJ reconhece a competência do juízo da recuperação judicial para deliberar sobre atos executivos que envolvam créditos concursais sujeitos ao plano de recuperação.
4. Constatada a anterioridade do crédito em relação ao pedido de recuperação judicial, bem como a homologação do plano que veda a execução contra os sócios aos credores aderentes, é inviável a prática de atos constritivos pelo juízo trabalhista, competindo ao juízo universal decidir sobre a regularidade do cumprimento do plano e da desconsideração da personalidade jurídica.
IV. DISPOSITIVO
5. Agravo interno desprovido.
(AgInt no CC n. 205.557/MG, relatora Ministra Daniela Teixeira, Segunda Seção, julgado em 19/8/2025, DJEN de 22/8/2025.)
Ante o exposto, confirmo a liminar anteriormente concedida e, no mérito, declaro competente o Juízo de Direito da 2ª Vara Cível, Criminal e de Execuções Penais da Comarca de Sacramento-MG para deliberar sobre o crédito exigido na Reclamação Trabalhista n. 0011079-60.2014.5.03.0168, em trâmite no Juízo da 4ª Vara do Trabalho de Uberaba/MG, bem como a respeito de eventuais atos constritivos determinados no mencionado feito.
Publique-se. Intimem-se.
Relator
DANIELA TEIXEIRA
2025
CC 207930/MG (2024/0330651-3)RELATORA:MINISTRA DANIELA TEIXEIRASUSCITANTE:USINA SACRAMENTO LTDA - EM RECUPERACAO JUDICIAL EM RECUPERACAO JUDICIALSUSCITANTE:BRUNO TENORIO DE AMORIMSUSCITANTE:DENISON COSTA DE AMORIM FILHOSUSCITANTE:MARLA TENORIO DE AMORIM LOUREIROSUSCITANTE:AGRO PECUARIA OLIVAL TENORIO LTDAADVOGADOS:LUIZ CARLOS BARBOSA DE ALMEIDA - AL002810ÁTILA PINTO MACHADO JÚNIOR - AL006123GUSTAVO MARTINS DELDUQUE DE MACEDO - AL007656SUSCITADO:JUÍZO DE DIREITO DA 2A VARA CÍVEL, CRIMINAL E DE EXECUÇÕES PENAIS DE SACRAMENTO - MGSUSCITADO:JUÍZO DA 4A VARA DO TRABALHO DE UBERABA - MGINTERESSADO:CLAUDIO SIMAOADVOGADOS:CLEBER DE ALCANTARA CHAGAS - MG104300NAYARA NAISE SOARES DE CASTRO - MG141176Processo distribuído pelo sistema automático em 05/03/2025.
CC 207930/MG (2024/0330651-3)RELATOR:MINISTRO CARLOS CINI MARCHIONATTI (DESEMBARGADOR CONVOCADO TJRS)SUSCITANTE:USINA SACRAMENTO LTDA - EM RECUPERACAO JUDICIAL EM RECUPERACAO JUDICIALSUSCITANTE:BRUNO TENORIO DE AMORIMSUSCITANTE:DENISON COSTA DE AMORIM FILHOSUSCITANTE:MARLA TENORIO DE AMORIM LOUREIROSUSCITANTE:AGRO PECUARIA OLIVAL TENORIO LTDAADVOGADOS:LUIZ CARLOS BARBOSA DE ALMEIDA - AL002810ÁTILA PINTO MACHADO JÚNIOR - AL006123GUSTAVO MARTINS DELDUQUE DE MACEDO - AL007656SUSCITADO:JUÍZO DE DIREITO DA 2A VARA CÍVEL, CRIMINAL E DE EXECUÇÕES PENAIS DE SACRAMENTO - MGSUSCITADO:JUÍZO DA 4A VARA DO TRABALHO DE UBERABA - MGINTERESSADO:CLAUDIO SIMAOADVOGADOS:CLEBER DE ALCANTARA CHAGAS - MG104300NAYARA NAISE SOARES DE CASTRO - MG141176Processo distribuído pelo sistema automático em 24/01/2025.