Publicacao/Comunicacao
Intimação - DESPACHO
RE no AgRg no HC 981379/RS (2025/0045500-9)
RELATOR: MINISTRO VICE-PRESIDENTE DO STJ
RECORRENTE: MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
RECORRIDO: ELISANDRO MACIEL
ADVOGADO: VOLNETE GILIOLI - RS075433
INTERESSADO: MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
IMPETRADO: TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
DECISÃO 1. Trata-se de recurso extraordinário interposto com fundamento no art. 102, III, a, da Constituição Federal, contra acórdão do Superior Tribunal de Justiça que recebeu a seguinte ementa (fl. 127): DIREITO PROCESSUAL PENAL. AGRAVO REGIMENTAL. PROGRESSÃO DE REGIME. EXAME CRIMINOLÓGICO. APLICAÇÃO RETROATIVA DE NORMA PROCESSUAL. AGRAVO DESPROVIDO. I. CASO EM EXAME 1. Agravo regimental interposto pelo Ministério Público do Estado do Rio Grande do Sul contra decisão que não conheceu do habeas corpus, mas concedeu a ordem de ofício para cassar o acórdão do Tribunal de Justiça e restabelecer decisão anteriormente proferida pelo Juízo da Execução Penal. II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO 2. A questão em discussão consiste em saber se a Lei nº 14.843/2024, que alterou a redação do art. 112, § 1º, da Lei de Execução Penal, tornando obrigatória a realização de exame criminológico para progressão de regime, pode ser aplicada retroativamente a crimes cometidos antes de sua vigência. III. RAZÕES DE DECIDIR 3. A Lei nº 14.843/2024, ao exigir exame criminológico para progressão de regime, constitui novatio legis in pejus, não podendo ser aplicada retroativamente a fatos anteriores à sua vigência, conforme entendimento pacificado pelo Superior Tribunal de Justiça. 4. A imposição do exame criminológico para apreciação da progressão de regime, sem respaldo em elementos concretos da execução, configura constrangimento ilegal, justificando a concessão do habeas corpus. IV. DISPOSITIVO E TESE 5. Agravo regimental desprovido. A parte recorrente sustenta a ocorrência de violação do art. 5º, XL, da Constituição Federal e afirma que a matéria em discussão seria dotada de repercussão geral. Alega que a modificação trazida pela Lei n. 14.843/2024, no que diz respeito à progressão de regime prisional, seria norma de caráter procedimental aplicável imediatamente a todos os processos em curso, independentemente da data do crime. Requer, ao final, a admissão do recurso extraordinário, com a remessa dos autos ao Supremo Tribunal Federal. É o relatório. 2. A discussão ora suscitada cinge-se à obrigatoriedade do exame criminológico para a progressão de regime, nos termos da Lei n. 14.843/2024, que alterou o § 1º do art. 112 da Lei de Execução Penal, na execução de pena por crimes praticados antes da sua vigência, em razão da garantia de irretroatividade da lei penal mais gravosa. O Supremo Tribunal Federal reconheceu a repercussão geral da questão em debate nos autos do RE n. 1.536.743-RG/SP (Tema n. 1.408 do STF). Confira-se: Direito constitucional e penal. Recurso extraordinário. Retroatividade de alteração da Lei de Execução Penal. Exame criminológico para progressão de regime. Repercussão Geral. I. Caso em exame 1. Recurso extraordinário contra acórdão do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo que afirmou a irretroatividade da Lei nº 14.843/2024, que alterou a Lei de Execuções Penais (LEP) para tornar obrigatório o exame criminológico para a progressão de regime. Isso ao argumento de que a modificação seria mais gravosa aos apenados, de modo que não poderia ser aplicada na execução de condenação por crimes praticados antes da vigência da lei. II. Questão em discussão 2. A questão em discussão consiste em saber se é possível aplicar a Lei nº 14.843/2024, que passou a exigir o exame criminológico para a progressão de regime, para crimes praticados antes de sua vigência, em razão da garantia de irretroatividade da lei penal mais gravosa. III. Razões de decidir 3. O debate sobre a constitucionalidade do art. 2º da Lei nº 14.843/2024, que alterou dispositivos da Lei de Execução Penal, é objeto das ADIs nº 7.678, 7.663, 7.665 e 7.672. As ações diretas, contudo, não tem o efeito de sobrestar os recursos extraordinários sobre a aplicação da lei nova na execução de crimes cometidos antes de sua vigência. 4. O Supremo Tribunal Federal, no Tema 1.319/RG (RE 1.464.013), reconheceu a repercussão geral da controvérsia sobre a aplicação retroativa de parte mais benéfica de lei penal sobre progressão de pena (art. 112, VI, a, da LEP, com a redação da Lei nº 13.964/2019) ao apenado por crime hediondo. De igual modo, no RE 1.532.446 (Tema 1.381/STF), reconheceu a repercussão geral de controvérsia sobre a aplicação da própria Lei nº 14.843/2024 na execução de pena por crimes praticados antes de sua vigência, mas em relação às alterações promovidas na LEP sobre saída temporária e trabalho externo do apenado. 5. Constitui questão constitucional relevante a discussão sobre a aplicação da Lei nº 14.843/2024, que alterou o § 1º do art. art. 112 da LEP, na execução de pena por crimes anteriores à sua vigência, para exigir a realização de exame criminológico para a progressão de regime. IV. Dispositivo 6. Repercussão geral reconhecida para a seguinte questão constitucional: saber se a aplicação da Lei nº 14.843/2024, sobre a obrigatoriedade do exame criminológico para a progressão de regime, na execução de pena por crimes praticados antes de sua vigência, viola a garantia de irretroatividade da lei penal mais gravosa (CF/1988, art. 5º, XL). (RE n. 1.536.743 RG, Relator Ministro Luís Barroso, Ministro Presidente, Tribunal Pleno, julgado em 14/06/2025, DJe: pendente de publicação) Entretanto, o mérito do Tema n. 1.408 do STF ainda não foi julgado pela Suprema Corte, impondo-se, assim, o sobrestamento do recurso. 3. Ante o exposto, com amparo no art. 1.030, III, do Código de Processo Civil, determino o sobrestamento do recurso extraordinário até o julgamento do Tema n. 1.408 do STF. Publique-se. Intimem-se. Vice-Presidente
LUIS FELIPE SALOMÃO