Publicacao/Comunicacao
Intimação - Decisão
DECISÃO
Requerente: Vanessa Moreira de Sousa Advogado: Jéssica Caroline Santana Santos (OAB/MA 17.127)
Requerido: Município de Açailândia Advogada: Jéssica Maria Gabriela da Silva Diniz (OAB/MA 13.901) Órgão Julgador: Sétima Câmara Cível Relator: Desembargador Josemar Lopes Santos ADMINISTRATIVO E PROCESSUAL CIVIL. REMESSA NECESSÁRIA. DIREITO À SAÚDE. FORNECIMENTO DE TRATAMENTO CIRÚRGICO, EXAMES, CONSULTAS, MEDICAMENTOS E TRATAMENTO FORA DO DOMICÍLIO. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA DOS ENTES FEDERADOS. ED NO RE Nº 855.178/SE (TEMA 793). ATRIBUIÇÃO DO PODER PÚBLICO. RESP Nº 1.657.156/RJ (TEMA 106). DECISÃO MONOCRÁTICA. ART. 932, IV, “B”, DO CPC. ART. 319, § 1º, DO RITJMA. DESPROVIMENTO. I. Remessa apreciada monocraticamente, nos termos do que dispõem os arts. 932, V, “b”, do CPC e 319, § 1º, do RITJMA. Precedentes; II. Este eg. Tribunal de Justiça já concluiu, em diversos julgados, que comprovada a necessidade do tratamento de saúde e sua carência pelo cidadão, compete ao Estado e/ou Município, fornecê-lo; III. A condenação dos entes estatais ao atendimento do direito fundamental à saúde não representa ofensa aos princípios da separação dos poderes, do devido processo legal, da legalidade ou da reserva do possível; IV. O Superior Tribunal de Justiça no julgamento do REsp nº 1.657.156/RJ (Tema nº 106), pacificou entendimento no sentido de que a obrigatoriedade de o poder público fornecer medicamentos não incorporados à lista do SUS exige, cumulativamente, o preenchimento dos seguintes pressupostos comprovação, através de laudo médico fundamentado e circunstanciado expedido por médico que assiste o paciente, da imprescindibilidade ou necessidade do medicamento, assim como da ineficácia, para o tratamento da moléstia, dos fármacos fornecidos pelo SUS; incapacidade financeira de arcar com o custo do medicamento prescrito; existência de registro do medicamento na ANVISA, observados os usos autorizados pela agência; V. Remessa conhecida e desprovida. DECISÃO Cuidam os autos de Apelação Cível interposta pelo Município de Açailândia/MA contra sentença exarada pelo Juízo de Direito da Vara da Fazenda Pública da Comarca de Açailândia/MA (ID nº 16611134), que confirmou a antecipação de tutela e julgou procedente a ação. Da petição inicial (ID nº 16610982): Ação Cominatória com Pedido de Antecipação de Tutela consistente em compelir a municipalidade em questão e o Estado do Maranhão a fornecerem, por meio da rede pública: a) cirurgia de Ureterorrenolitotripsia Flexível Esquerda com Implante de Cateter Duplo "g" – CID n20.0, conforme prescrição médica; b) os medicamentos, exames e consultas que forem solicitados em razão do tratamento; c) as passagens e ajuda de custo, inclusive para um acompanhante, por meio do Programa de TFD, caso o tratamento deva ser realizado fora do Município de Açailândia/MA. Autos remetidos em sede de sentença (ID nº 16611134). Do parecer da Procuradoria-Geral de Justiça (ID nº 17906077): Manifestou-se pelo conhecimento e desprovimento da remessa necessária. É o que cabia relatar. Passo à decisão. Da admissibilidade Por não se tratar de recurso, sujeito a juízo de admissibilidade, entendo por cabível a apreciação da presente remessa, na forma do art. 496, I, CPC[1], de certo que passo a apreciá-la monocraticamente, nos termos do que dispõem os arts. 932, V, “b”, do CPC e 319, § 1º, do RITJMA. A jurisprudência sinaliza a possibilidade do julgamento monocrático da remessa necessária, como se extrai do excerto que segue. REMESSA NECESSÁRIA. DECISÃO MONOCRÁTICA. DIREITO PREVIDENCIÁRIO. IPÊ-SAÚDE. APLICAÇÃO DA EXEGESE DO ART. 496, § 3º, DO CPC/15. NÃO CONHECIMENTO. - Não cabe remessa necessária nas ações de saúde movidas contra os entes públicos em que o valor anual da prestação de saúde não alcança o número de salários mínimos indicado no art. 496, § 3º, do CPC/15 c/c Ofício-Circular nº 062/2015 ? CGJ.- Também é incabível a remessa necessária quando a sentença estiver fundada em jurisprudência do plenário do Supremo Tribunal Federal ou em súmula deste Tribunal ou do tribunal superior competente.- Caso dos autos em que o valor anual do tratamento alcança, em média, conforme o menor orçamento, R$ 16.500,00, não alcançando o mínimo exigido de R$ 550.000,00.REMESSA NECESSÁRIA NÃO CONHECIDA. (TJ-RS - Remessa Necessária Cível: 70085432813 RS, Relator: Marilene Bonzanini, Data de Julgamento: 05/11/2021, Vigésima Segunda Câmara Cível, Data de Publicação: 10/11/2021). Grifei Da ilegitimidade passiva O Município de Açailândia/MA suscitou sua ilegitimidade passiva (ID nº 16611063), ao argumento de que ao Estado do Maranhão compete providenciar o tratamento, insumos e logística pleiteados pela requerente, haja vista ser responsável pela gestão da rede hospitalar pública e privada credenciada no SUS, o que não merece prosperar. O Supremo Tribunal Federal, no julgamento dos Embargos de Declaração no Recurso Extraordinário nº 855.178/SE[2], com a finalidade de pacificar a controvérsia, fixou tese de repercussão geral, cuja redação restou estabelecida dessa forma: Tema 793: Os entes da federação, em decorrência da competência comum, são solidariamente responsáveis nas demandas prestacionais na área da saúde, e diante dos critérios constitucionais de descentralização e hierarquização, compete à autoridade judicial direcionar o cumprimento conforme as regras de repartição de competências e determinar o ressarcimento a quem suportou o ônus financeiro. Colhe-se da aludida tese, que a existência de responsabilidade solidária entre os entes federativos, nas ações prestacionais na área da saúde, implica para o titular do direito a faculdade de escolher quem deve figurar no polo passivo da ação, assim, qualquer dos entes federados possui legitimidade para figurar no polo passivo da demanda, ainda que isoladamente, in verbis: ADMINISTRATIVO E PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. DIREITO À SAÚDE. FORNECIMENTO DE MEDICAMENTO. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA DOS ENTES FEDERATIVOS. LITISCONSÓRCIO PASSIVO NECESSÁRIO DA UNIÃO. INEXISTÊNCIA. ACÓRDÃO DE 2º GRAU EM DISSONÂNCIA COM A JURISPRUDÊNCIA DO STJ.AGRAVO INTERNO IMPROVIDO. I. (...) III. Na forma da jurisprudência do STJ, "o funcionamento do Sistema Único de Saúde é de responsabilidade solidária da União, dos Estados e dos Municípios, de modo que qualquer um desses Entes tem legitimidade ad causam para figurar no polo passivo de lide que objetiva a garantia do acesso a medicamentos para tratamento de problema de saúde. Assim, se qualquer destes entes pode figurar sozinho no polo passivo da ação, não dispondo, inclusive, de direito de regresso contra os demais, bem como da faculdade de se utilizar a figura do chamamento ao processo, caracterizada está a situação de que qualquer um deles pode ser o responsável pelo cumprimento da obrigação, competindo à parte escolher contra quem deseja litigar" (STJ, REsp 1.805.886/SP, Rel. Ministro HERMAN BENJAMIN, SEGUNDA TURMA, DJe de 17/06/2019). Em igual sentido: STJ, AgInt no AREsp 1.638.685/GO, Rel. Ministro FRANCISCO FALCÃO, SEGUNDA TURMA, DJe de 01/07/2020; AgInt no REsp 1.799.103/PI, Rel. Ministro MAURO CAMPBELL MARQUES, SEGUNDA TURMA, DJe de 24/09/2019; AgInt no REsp 1.584.811/PI, Rel. Ministro GURGEL DE FARIA, PRIMEIRA TURMA, DJe de 14/12/2017. IV. (…) V. Agravo interno improvido. (STJ – AgInt nos EDcl no AREsp: 1878165 MS 2021/0114432-1, Relator: Ministra ASSUSETE MAGALHÃES, Data de Julgamento: 28/03/2022, T2 – SEGUNDA TURMA, Data de Publicação: DJe 30/03/2022) (Grifei) Nesse passo, tendo em vista que a responsabilidade solidária inerente ao direito à saúde confere ao cidadão autonomia para acionar qualquer ente público (federal, estadual ou municipal) para garantir a eficácia da norma constitucional, reputo acertada a sentença, de modo a não merecer corrigenda. Da responsabilidade civil do Estado Como cediço, o acesso à saúde é um direito fundamental consagrado constitucionalmente (art. 196 da CF), não se podendo invocar o caráter programático das regras constitucionais para deixar de cumprir a obrigação de fornecer medicamentos e adequado tratamento quando indispensáveis. Ressalto, ainda, que a imposição judicial de fornecimento de medicamentos ou tratamentos médicos não implica ingerência do Poder Judiciário sobre o Poder Executivo. Configura típico exercício da Jurisdição, conforme posição pacífica deste eg. Tribunal de Justiça, in verbis: DIREITO À SAÚDE. INTERNAÇÃO EM LEITO DE UTI. PESSOA IDOSA. OBRIGAÇÃO DO ESTADO. MÍNIMO EXISTENCIAL. 1. O direito à saúde constitui direito fundamental da pessoa humana, podendo o Judiciário determinar medidas que assegurem concreta e eficazmente proteção a esse relevante bem jurídico (artigos 1°, inc. III, 6º, caput e 196, da CF). 2. Responsabilidade solidária de todos os entes federativos, a teor do disposto no art. 23, inc. II da CF. 3. Apelação conhecida e provida. (QUARTA CÂMARA CÍVEL APELAÇÃO CÍVEL 0800097-61.2018.8.10.0040, RELATORA: DESª MARIA FRANCISCA GUALBERTO DE GALIZA, 25 de junho de 2021) (grifei) Desse modo, é lícito ao Poder Judiciário, em face do princípio da supremacia da Constituição, em situações excepcionais, determinar que a Administração Pública adote medidas assecuratórias de direitos constitucionalmente reconhecidos como essenciais, sem que isso configure violação do princípio da separação dos Poderes. Corroborando esse entendimento, colaciono o seguinte julgado do Superior Tribunal de Justiça: O Superior Tribunal de Justiça já consolidou entendimento no sentido de "inexistir violação ao princípio da separação de poderes quando houver afronta a direitos constitucional ou legalmente reconhecidos como essenciais, onde se encaixam, por exemplo, o direito à saúde e ao meio ambiente ecologicamente equilibrado" (REsp 1559180/MG, Rel. Ministro HERMAN BENJAMIN, SEGUNDA TURMA, julgado em 19/03/2019, DJe 08/09/2020). (grifei) Devem ser observados, entretanto, alguns requisitos para impor ao Estado a obrigação de proteção à saúde pública, de modo a impedir que ela seja aplicada a todo e qualquer medicamento, procedimento ou insumo. Nesse passo, o Superior Tribunal de Justiça no julgamento do REsp nº 1.657.156/RJ (Tema nº 106), pacificou entendimento no sentido de que a obrigatoriedade de o poder público fornecer medicamentos não incorporados à lista do SUS exige, cumulativamente, o preenchimento dos seguintes pressupostos: (i) comprovação, através de laudo médico fundamentado e circunstanciado expedido por médico que assiste o paciente, da imprescindibilidade ou necessidade do medicamento, assim como da ineficácia, para o tratamento da moléstia, dos fármacos fornecidos pelo SUS; (ii) incapacidade financeira de arcar com o custo do medicamento prescrito; (iii) existência de registro do medicamento na ANVISA, observados os usos autorizados pela agência. Na espécie, a controvérsia instaurada restringe-se à execução de cirurgia de Ureterorrenolitotripsia Flexível Esquerda com Implante de Cateter Duplo "g" – CID n20.0, conforme prescrição médica (ID nº 16610988), bem como o fornecimento de medicamentos, exames e consultas afetos ao tratamento e, ainda, a disponibilização de passagens e ajuda de custo, inclusive para um acompanhante, por meio do Programa de TFD, caso o tratamento deva ser realizado fora do Município de Açailândia/MA. Desse modo, havendo indicação médica e suficientes evidências de que o tratamento pleiteado seria o mais adequado e eficaz ao tratamento prescrito pelo médico que acompanha a recorrida, não é possível se formar juízo diverso do já exposado pela togada singular na sentença ora impugnada. Sobre o tema, assim tem decidido os tribunais pátrios: RECURSO DE APELAÇÃO E REMESSA NECESSÁRIA. Estatuto da Criança e do Adolescente. Ação de obrigação de fazer. Pretensão de fornecimento, pela Fazenda Estadual, de medicamento (Belimumabe; nome comercial: Benlysta) a adolescente portadora de Lúpus Eritematoso Sistêmico Juvenil (LESJ). Insurgência da Fazenda Estadual contra a sentença de procedência. Não acolhimento. (…) Solidariedade dos Entes da Federação. Direito fundamental à saúde, que não pode ser obstaculizado pela Administração Pública sob invocação da cláusula da "reserva do possível". Atuação do Poder Judiciário que apenas garante o exercício ou a eficácia de direitos fundamentais, não importando em violação aos princípios da isonomia, da separação dos Poderes e da autonomia administrativa. Caso sujeito à tese vinculante firmada pelo C. Superior Tribunal de Justiça no Recurso Especial nº 1.657.156 (Tema de Recursos Repetitivos nº 106), porquanto o medicamento não é padronizado para dispensação no âmbito do Sistema Único de Saúde – SUS e a ação obrigacional fora distribuída após a data estabelecida para modulação dos efeitos do referido julgado. Preenchimento de todos os requisitos exigidos na tese estabelecida pelo C. STJ no supracitado tema, a autorizar a concessão do medicamento. Recurso adesivo, manejado em nome da parte autora, objetivando a majoração dos honorários sucumbenciais fixados em favor de sua patrona. Intimada para que recolhesse o preparo, nos termos dos artigos 99, § 5º e 1.007, § 4º, do Diploma Processual Civil vigente, a causídica permaneceu inerte. Caracterizada a deserção do recurso adesivo. Preliminares rejeitadas. Remessa necessária e recurso de apelação da Fazenda Estadual não providos e recurso adesivo não conhecido. (TJ-SP - APL: 10183642020218260114 SP 1018364-20.2021.8.26.0114, Relator: Issa Ahmed, Data de Julgamento: 29/09/2021, Câmara Especial, Data de Publicação: 29/09/2021) Assim, reputo hígida e irretorquível a sentença combatida, de modo a não merecer reparos. Conclusão Por tais razões, de acordo com o parecer da Procuradoria-Geral de Justiça, com observância ao disposto no art. 93, IX, da Constituição Federal de 1988, e nos termos do que dispõem os arts. 932, IV, “b”, do CPC e 319, § 1º, do RITJMA, decidindo monocraticamente, CONHEÇO DA REMESSA e NEGO A ELA PROVIMENTO, mantendo a sentença em todos os seus termos, na forma da fundamentação supra. São Luís, data do sistema. Desembargador Josemar Lopes Santos Relator [1] Art. 496. Está sujeita ao duplo grau de jurisdição, não produzindo efeito senão depois de confirmada pelo tribunal, a sentença: I - proferida contra a União, os Estados, o Distrito Federal, os Municípios e suas respectivas autarquias e fundações de direito público. [2] CONSTITUCIONAL E ADMINISTRATIVO. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO EM RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM REPERCUSSÃO GERAL RECONHECIDA. AUSÊNCIA DE OMISSÃO, CONTRADIÇÃO OU OBSCURIDADE. DESENVOLVIMENTO DO PROCEDENTE. POSSIBILIDADE. RESPONSABILIDADE DE SOLIDÁRIA NAS DEMANDAS PRESTACIONAIS NA ÁREA DA SAÚDE. DESPROVIMENTO DOS EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. 1. É da jurisprudência do Supremo Tribunal Federal que o tratamento médico adequado aos necessitados se insere no rol dos deveres do Estado, porquanto responsabilidade solidária dos entes federados. O polo passivo pode ser composto por qualquer um deles, isoladamente, ou conjuntamente. 2. (...) 4. Embargos de declaração desprovidos". (STF, EDcl no RE 855.178/SE, Rel. Ministro LUIZ FUX, Rel. p/ acórdão Ministro EDSON FACHIN, TRIBUNAL PLENO, DJe de 16/04/2020). (Grifei)
Decisão (expediente) - PODER JUDICIÁRIO ESTADO DO MARANHÃO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO MARANHÃO SÉTIMA CÂMARA CÍVEL Gabinete do Desembargador Josemar Lopes Santos REMESSA NECESSÁRIA N° 0801966-16.2018.8.10.0022 Remetente: Juízo de Direito da Vara da Fazenda Pública da Comarca de Açailândia/MA