Publicacao/Comunicacao
Intimação - Sentença
SENTENÇA
AUTOR: ELIEZIO VIEIRA SOARES
REU: BANCO ITAÚ CONSIGNADO S/A SENTENÇA I – RELATÓRIO Eliezio Vieira Soares ajuizou ação declaratória de inexistência de negócio jurídico c/c repetição de indébito c/c danos morais em desfavor do Banco Itaú Consignados S.A. A parte autora narra sofrer descontos indevidos oriundos do contrato nº 630831544. Aduz não ter contratado ou autorizado sua contratação junto ao banco demandado. Para provar o alegado, fez juntada de documentos, essencialmente o extrato de empréstimos consignados. Deferida a gratuidade de justiça e, em sede de cognição sumária, indeferiu-se a liminar pretendida por ausentes os requisitos do art. 300 do CPC. Regularmente citada, a parte requerida apresentou contestação aduzindo regularidade de contratação e adoção das cautelas necessárias para formalização do negócio jurídico. Fez juntada de contrato firmado e transferência TED realizada. Houve réplica. Vieram os autos conclusos. É o breve relatório. Passo a decidir. II – FUNDAMENTAÇÃO Inicialmente, quanto ao pedido de audiência para oitiva da parte autora, hei por bem indeferir o pedido formulado. Considerando que o cerne da controvérsia em debate funda-se essencialmente na existência/inexistência de relação contratual entre as partes e a validade/invalidade de eventual contrato. Dessa forma, tal deslinde deve ocorrer mediante apresentação de provas documentais. Assim, entendo que o depoimento pessoal pleiteado não terá o condão de trazer subsídio para o convencimento do magistrado, ou seja, nada contribuirá para a solução da questão discutida. Quanto ao pedido de expedição de ofício, requerido pela parte requerida, também entendo pelo seu indeferimento. A existência/inexistência de relação contratual entre as partes pode ser demonstrada por meios documentais já existente nos autos. Assim, considerando que a presente demanda se encontra suficientemente instruída e desnecessária a produção de outras provas, passou ao julgamento antecipado da lide, nos termos do art. 355, I, do CPC. Deixo de apreciar as questões preliminares de mérito aduzidas pelo réu em sede de contestação, uma vez que se mostra mais favorável ao réu a análise do mérito, de acordo com o princípio da primazia do julgamento do mérito, nos termos do artigo 488 do Código de Processo Civil. Inicialmente destaco que o Código de Defesa do Consumidor - CDC é aplicável ao caso em tela, com atenção ao disposto no art. 2º do referido código e súmula 297 do STJ. Neste diapasão, verifico ainda que a parte suplicante é hipossuficiente em relação a parte ré, pois pessoa física com pouca capacidade financeira frente à instituição financeira das maiores do país, razão pela qual a inversão do ônus da prova se opera, conforme art. 6º, inciso VIII, do CDC. A qualidade de consumidor e a inversão do ônus da prova não são condições suficientes para a procedência do pedido. Deve-se analisar as provas e demais alegações colacionadas aos autos. A parte autora, em sua inicial, alega surpresa dos descontos realizados e desconhecimento da contratação do empréstimo ora discutido. Enquanto o banco requerido alega regularidade do negócio jurídico pactuado, bem como legitimidade dos descontos realizados. Cinge-se, portanto, a controvérsia da presente demanda a existência/inexistência de relação contratual entre as partes e a validade/invalidade de eventual contrato de empréstimo consignado. Pois bem, o art. 46 do CDC dispõe que os contratos de consumo não vinculam o consumidor quando não lhe for dada a oportunidade de conhecer previamente seu conteúdo ou quando redigidos de forma a dificultar sua compreensão. Esse dispositivo reflete o princípio da boa-fé, que deve nortear a relação entre as partes. Neste ponto, esclareço que não há nos autos prova de que o banco requerido agiu de má-fé, que tenha negado informações à parte requerente ou as tenha dado de forma incompleta. Tal ônus caberia à parte autora (art. 373, I, do CPC). Ressalte-se desde já que a inversão do ônus da prova não significa que caberá à parte demandada, fornecedora, a prova de fatos negativos ou provas diabólicas. Outrossim, o princípio contratual da função social do contrato resta verificado na medida em que o banco demandado faz a circulação de bens e serviços sem onerar excessivamente a parte suplicante. Destarte, não há nos autos elementos convincentes que possam fundamentar a nulidade do contrato ou a sua inexistência. Ademais, também não existe qualquer vício (erro, dolo, coação, estado de perigo, fraude contra credores ou lesão) no negócio jurídico entabulado entre as partes. Das provas colacionadas aos autos, infere-se a importância do contrato juntado pelo Banco Requerido (ID nº 65191932 / 65191941), com a assinatura da parte consumidora, por biometria facial, bem como todos os seus documentos de identificação, o que evidenciam a cautela da parte Requerida na celebração do negócio jurídico. Desta feita, os valores liberados pelo banco foram creditados na conta de titularidade da parte autora, consoante se infere do documento acostado aos autos. (ID nº 65192517 / 65192528 / 65192501). Percebe-se que a parte agiu com total capacidade e liberdade na elaboração do contrato, uma vez que a parte autora efetivamente realizou o contrato. Neste diapasão, das provas colhidas, impossível negar que a demandante concretizou o devido contrato com o requerido. O contrato entabulado pelas partes cumpriu as formalidades legais, razão pela qual faz-se necessário preservar as vontades das partes manifestadas quando da celebração do contrato em atenção ao princípio do “pacta sunt servanda”. Conheço que tal princípio vem sendo relativizado, mas essa relativização não significa sua irrelevância. Afinal, na realização de um contrato é necessária a manifestação de vontade, e, em nenhum momento foi questionado pela parte, mas apenas o fato de não o conhecer. Logo, não observo qualquer nulidade no contrato. Por fim, se não há nulidade no contrato entabulado entre as partes, ou seja, se o contrato é perfeito, válido e eficaz, tendo a parte autora recebido os valores contratados e sendo os juros legais, não há como reconhecer qualquer direito a repetição de indébito, danos morais e materiais. Não houve pagamento em excesso, bem como ilícito praticado pela instituição financeira demandada que pudesse configurar a repetição do indébito e a reparação por danos. III – DISPOSITIVO
PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DO PIAUÍ Vara Única da Comarca de São Miguel do Tapuio DA COMARCA DE SãO MIGUEL DO TAPUIO Rua Francisca de Aragão Paiva, s/n, Matadouro, SãO MIGUEL DO TAPUIO - PI - CEP: 64330-000 PROCESSO Nº: 0800277-49.2024.8.18.0071 CLASSE: PROCEDIMENTO COMUM CÍVEL (7) ASSUNTO(S): [Empréstimo consignado]
Ante o exposto, com base nos fundamentos jurídicos acima, julgo improcedente o pedido inicial, com fulcro no art. 487, I, do CPC. Condeno a parte requerente nas custas processuais e nos honorários advocatícios no patamar de 10% (dez por cento). Confirmo o pedido de justiça gratuita, razão pela qual fica suspensa a cobrança das custas processuais, nos termos do art. 12 da Lei n. 1.060/50, c/c §3º do art. 93 do CPC. Havendo recurso de apelação, intime-se a parte recorrida, sem necessidade de nova conclusão, para, querendo, apresentar contrarrazões no prazo de 15 (quinze) dias e, em seguida, decorrido o prazo, com ou sem manifestação da parte, remetam os autos ao Eg. Tribunal de Justiça do Estado do Piauí-PI, observadas as formalidades de estilo. Após o trânsito em julgado, arquive-se os autos, dando-se baixa no Sistema PJe. Publique-se. Registre-se. Intimem-se. Cumpra-se. São Miguel do Tapuio – PI, data registrada pelo sistema. Juiz(a) de Direito da Vara Única da Comarca de São Miguel do Tapuio