Publicacao/Comunicacao
Intimação
RECURSO INOMINADO CÍVEL Nº 5048485-85.2022.8.21.0010/RS
TIPO DE AÇÃO: Descontos Indevidos
RELATOR: Juiz de Direito DANIEL HENRIQUE DUMMER
RECORRENTE: MARCELO DA CONCEICAO (REQUERENTE)
ADVOGADO(A): ANA CRISTINA RIBEIRO FANTIN VASATA (OAB RS073765)
ADVOGADO(A): NATALIA REGININI E SILVA (OAB RS073473)
EMENTA
segunda turma recursal da fazenda pública. DIREITO ADMINISTRATIVO. RECURSO INOMINADO. MUNICÍPIO DE CAXIAS DO SUL. SERVIDOR PÚBLICO MUNICIPAL. READEQUAÇÃO DE BASE DE CÁLCULO DE VANTAGENS FUNCIONAIS. VEDAÇÃO AO EFEITO CASCATA. LEGITIMIDADE DA REVISÃO ADMINISTRATIVA. INEXISTÊNCIA DE VIOLAÇÃO À IRREDUTIBILIDADE DE VENCIMENTOS. RECURSO DESPROVIDO.
I. CASO EM EXAME
Recurso Inominado interposto por servidor público municipal em face de sentença que julgou improcedente pedido declaratório de nulidade de ato administrativo que revisou a base de cálculo de vantagens funcionais, com exclusão da Função Gratificada incorporada da base de cálculo de triênios e gratificações adicionais, sob alegação de afronta ao princípio da irredutibilidade de vencimentos e à segurança jurídica. A Administração fundamentou a revisão em orientação técnica do Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Sul (processo nº 1720/15-6), adotada pelo Município de Caxias do Sul a partir de janeiro de 2022, com efeitos a partir de março de 2019.
II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO
Há duas questões em discussão: (i) definir se é legítima a revisão administrativa da fórmula de cálculo de vantagens funcionais, com exclusão da Função Gratificada incorporada da base de cálculo, à luz do art. 37, XIV, da Constituição Federal; (ii) verificar se a alteração configura afronta ao princípio da irredutibilidade de vencimentos.
III. RAZÕES DE DECIDIR
A Administração Pública possui o poder-dever de autotutela, podendo revisar atos administrativos ilegais, conforme prevê a Súmula 473 do STF, desde que respeitados os princípios da segurança jurídica, boa-fé e o prazo decadencial de cinco anos, não ultrapassado no caso concreto.
A exclusão da Função Gratificada incorporada da base de cálculo de triênios e outras vantagens decorre da aplicação direta do art. 37, XIV, da CF/88, que veda a sobreposição de acréscimos pecuniários, prática caracterizada como "efeito cascata".
O entendimento do TCE/RS, embora não vinculante de forma erga omnes, configura orientação técnica legítima aos entes públicos, impondo-lhes o dever de conformação à Constituição.
A revisão administrativa implementada em 2022 não implicou restituição de valores percebidos de boa-fé, tampouco constituiu redução remuneratória indevida, mas simples correção de distorção inconstitucional na forma de cálculo.
O princípio da irredutibilidade de vencimentos (art. 37, XV, da CF/88) não protege valores percebidos com base em fórmula de cálculo inconstitucional, nos termos da jurisprudência do STF (RE 563708/MS, Tema 24).
A manutenção do pagamento como Vantagem Pessoal Nominalmente Identificável (VPNI) perpetuaria benefício inconstitucional, configurando enriquecimento sem causa.
IV. DISPOSITIVO E TESE
Recurso desprovido.
Tese de julgamento:
A Administração Pública pode revisar a base de cálculo de vantagens funcionais para excluir gratificações incorporadas quando a fórmula anterior contraria o art. 37, XIV, da CF/88, configurando efeito cascata.
A revisão administrativa que visa conformar a remuneração de servidores aos ditames constitucionais não afronta o princípio da irredutibilidade de vencimentos, pois não há direito adquirido a regime jurídico inconstitucional.
Valores percebidos de boa-fé não são passíveis de devolução, mas sua continuidade como vantagem pessoal é indevida quando a origem for inconstitucional.
Dispositivos relevantes citados: CF/1988, art. 37, incisos XIV e XV; CPC, art. 927, III; Lei nº 9.099/1995, arts. 2º, 46 e 55.
Jurisprudência relevante citada: STF, Súmula 473; STF, RE 563708/MS, Rel. Min. Ricardo Lewandowski, j. 04.11.2013; STJ, REsp 1244182/PB, Rel. Min. Benedito Gonçalves, j. 10.10.2012; TJRS, Apelação Cível nº 5002766-33.2020.8.21.0016, Rel. Des. Nelson A. M. Pacheco, j. 23.09.2021; Turmas Recursais da Fazenda Pública do RS, RIs nº 71009580291, nº 71009886284, nº 71010027951, nº 50044799020228210010, nº 50485074620228210010.
ACÓRDÃO
A 2ª Turma Recursal da Fazenda Pública decidiu, por unanimidade, NEGAR PROVIMENTO ao recurso inominado, nos termos do voto do(a) Relator(a).
Porto Alegre, 22 de maio de 2025.