Publicacao/Comunicacao
Intimação
Apelação Cível Nº 5012983-34.2024.4.02.5101/RJ
RELATOR: Desembargador Federal ALFREDO HILARIO DE SOUZA
APELANTE: CONCEITO FRANCHISING E LICENCIAMENTO LTDA (AUTOR)
ADVOGADO(A): ALINE SOUZA PERES (OAB RS087050)
ADVOGADO(A): FABIANO DE BEM DA ROCHA (OAB RS043608)
ADVOGADO(A): MILTON LUCIDIO LEAO BARCELLOS (OAB RS043707)
ADVOGADO(A): LARISSA PIEROZAN (OAB RS119468)
ADVOGADO(A): PEDRO KIRCHHEIM (OAB RS130518)
EMENTA
DIREITO EMPRESARIAL. PROPRIEDADE INDUSTRIAL. APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DE NULIDADE DE REGISTRO MARCÁRIO. MARCAS EVOCATIVAS. DISTINTIVIDADE REDUZIDA. SUFICIENTE DISSIMILARIDADE GRÁFICA, FONÉTICA E SEMÂNTICA. PRINCÍPIO DA ESPECIALIDADE. AUSÊNCIA DE RISCO DE CONFUSÃO OU ASSOCIAÇÃO. RECURSO DESPROVIDO.
I. CASO EM EXAME
1. Apelação interposta contra sentença que julgou improcedente o pedido de nulidade do registro marcário nº 907.978.630, referente à marca mista “IN MY HOME” (classe 21), e determinou a abstenção pretendida, condenando ainda a parte autora ao pagamento das custas e honorários advocatícios. A parte Apelante busca a reforma da decisão, alegando impossibilidade de coexistência do signo impugnado com suas marcas “MY HOME” registradas nas classes 20 e 35, por suposta violação aos arts. 124, VI e XIX, da LPI.
II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO
2. Há três questões em discussão: (i) definir se a expressão “MY HOME” possui caráter evocativo e baixo grau de distintividade, impondo à titular o ônus de coexistência com sinais semelhantes; (ii) estabelecer se há reprodução ou imitação capaz de gerar confusão ou associação indevida entre “MY HOME” (classes 20 e 35) e “IN MY HOME” (classe 21), à luz do art. 124, XIX, da LPI; (iii) determinar se o indeferimento administrativo de registro anterior para a marca “IN MY HOME” na classe 20 configura contradição apta a invalidar o registro concedido na classe 21.
III. RAZÕES DE DECIDIR
3. A marca “MY HOME”, utilizada pela Apelante nas classes 20 e 35, é considerada evocativa, por fazer alusão a produtos e serviços relacionados ao lar, razão pela qual possui baixo grau de distintividade, impondo ao titular o ônus da convivência com marcas semelhantes.
4. A expressão “IN MY HOME”, ainda que contenha a integralidade do núcleo nominativo “MY HOME”, apresenta suficiente distinção gráfica, fonética e semântica, com destaque para o termo “IN”, que confere novo significado ao conjunto e é elemento visual dominante na marca da Apelada.
5. A análise de colidência entre marcas exige a observação do princípio da especialidade, sendo permitida a coexistência de marcas semelhantes quando destinadas a produtos ou serviços distintos, ainda que afins, desde que não gerem risco de confusão no consumidor médio.
6. As classes 20 e 35 (móveis e comércio correlato) em que atuam as marcas da Apelante e a classe 21 (utensílios domésticos) em que se insere a marca da Apelada referem-se a produtos distintos, embora relacionados ao ambiente doméstico, o que não implica, por si só, sobreposição de mercado.
7. A jurisprudência do STJ reconhece que marcas evocativas não gozam de proteção ampla e podem coexistir com outras semelhantes, desde que apresentem elementos de diferenciação suficientes para afastar o risco de confusão (REsp 1.929.811/RJ e REsp 1.924.788/RJ).
8. A decisão administrativa do INPI ao deferir o registro da marca “IN MY HOME” na classe 21 está em conformidade com o princípio da especialidade, não havendo contradição com indeferimento anterior de marca idêntica na classe 20, em que já existia registro da Apelante.
9. A análise do conjunto marcário demonstra ausência de concorrência parasitária, de confusão no mercado consumidor e de violação ao art. 124, incisos VI e XIX, da Lei da Propriedade Industrial, motivo pelo qual deve ser mantida a sentença de improcedência.
IV. DISPOSITIVO E TESE
10. Recurso desprovido.
Tese de julgamento:
1. Marcas evocativas, por possuírem baixo grau de distintividade, impõem a seus titulares o ônus da convivência com outras semelhantes, desde que haja diferenciação gráfica, fonética ou conceitual suficiente.
2. A presença do termo “IN” como elemento predominante na marca “IN MY HOME” afasta a possibilidade de confusão ou associação indevida com a marca “MY HOME”.
3. A coexistência de marcas semelhantes é admitida quando destinadas a produtos ou serviços distintos, ainda que relacionados, desde que não induzam o consumidor ao erro.
4. A atuação do INPI está sujeita ao princípio da especialidade, sendo legítimo o deferimento de marca em classe diversa daquela em que já existe registro anterior.
Dispositivos relevantes citados: CF/1988, art. 5º, XXIX e XXXII; CDC, art. 4º, VI; CPC, arts. 85, §11; LPI, arts. 124, VI e XIX; 129.
Jurisprudência relevante citada: STJ, REsp 1.342.955/RS, Rel. Min. Nancy Andrighi, 3ª T., j. 18/2/2014; STJ, REsp 1.929.811/RJ, Rel. Min. Antonio Carlos Ferreira, 4ª T., j. 14/3/2023; STJ, REsp 1.924.788/RJ, Rel. Min. Nancy Andrighi, 3ª T., j. 8/6/2021; TRF2, AC 5038244-06.2021.4.02.5101, Rel. Des. Flávio de Oliveira Lucas, j. 29/11/2022.
ACÓRDÃO
Vistos e relatados estes autos em que são partes as acima indicadas, a Egrégia 2ª Turma Especializada do Tribunal Regional Federal da 2ª Região decidiu, por unanimidade, NEGAR PROVIMENTO ao recurso de apelação, nos termos do relatório, votos e notas de julgamento que ficam fazendo parte integrante do presente julgado.
Rio de Janeiro, 10 de fevereiro de 2026.