Publicacao/Comunicacao
Intimação - Decisão
DECISÃO
REQUERENTE: ADEMIR ROQUE Advogado do(a)
REQUERENTE: ADRIANA HELENA BETIN MANTELI - SP133234-N
REQUERIDO: INSTITUTO NACIONAL DO SEGURO SOCIAL - INSS OUTROS PARTICIPANTES: D E C I S Ã O
PODER JUDICIÁRIO Tribunal Regional Federal da 3ª Região 9ª Turma TUTELA CAUTELAR ANTECEDENTE (12134) Nº 5000362-23.2022.4.03.0000 RELATOR: Gab. 33 - DES. FED. GILBERTO JORDAN
Cuida-se de requerimento de antecipação dos efeitos da tutela, formulado pela parte autora em ação cautelar antecipatória ajuizada em face do INSTITUTO NACIONAL DO SEGURO SOCIAL - INSS, objetivando a concessão de auxílio doença sem a realização de perícia médica judicial (ID 251525913). Com a petição inicial, foram juntados documentos (ID 251525919), incluindo a procuração que legitima a atuação da signatária da inicial. Encaminhados os autos a este Eg.Tribunal. Nesta Corte, a parte autora protocolou petição, pleiteando a concessão da justiça gratuita, e a extinção da presente ação sem julgamento do mérito. (ID 251927379). dcm DECIDO. JUSTIÇA GRATUITA In casu, o juízo de origem não analisou o requerimento de concessão de justiça gratuita formulado pela parte autora. A Constituição Federal, em seu artigo 5º, inciso LXXIV, dispôs que: "Art. 5º. Omissis. LXXIX. O Estado prestará assistência judiciária integral e gratuita aos que comprovarem insuficiência de recursos". Da análise do dispositivo constitucional acima transcrito, temos que a Carta Maior estendeu, de forma ampla, a fruição da gratuidade judiciária por todos aqueles que comprovarem insuficiência de recursos. Atualmente, parte da matéria relativa à gratuidade da Justiça está disciplina no Código de Processo Civil, dentre os quais destaco o art. 98, caput, in verbis: Art. 98. A pessoa natural ou jurídica, brasileira ou estrangeira, com insuficiência de recursos para pagar as custas, as despesas processuais e os honorários advocatícios tem direito à gratuidade da justiça, na forma da lei. Com isto, objetivou o legislador ordinário justamente facilitar o acesso à Justiça àqueles que, necessitando acionar o Poder Judiciário para a defesa de seus interesses, não o fazem em razão de simples insuficiência de recurso e não mais por que trarão prejuízo de sua manutenção e de sua família. O pedido será formulado mediante mera petição ao Juízo, que somente o indeferirá mediante elementos que evidenciem a falta dos pressupostos legais para a concessão de gratuidade, devendo, antes de indeferir o pedido, determinar à parte a comprovação do preenchimento dos referidos pressupostos (inteligência do art. 99, caput c.c. §2º, do CPC/15.). Por seu turno, o texto do artigo 5º, do mesmo diploma legal, é explícito ao afirmar que se o juiz não tiver fundadas razões para indeferir o pedido de assistência judiciária gratuita, deverá julgá-lo de plano. A concessão de gratuidade não afasta a responsabilidade do beneficiário pelas despesas processuais e pelos honorários advocatícios decorrentes de sua sucumbência. A assistência do requerente por advogado particular não impede a concessão de gratuidade da justiça. Conforme se depreende dos autos, restou consignada a alegação da parte interessada acerca da sua insuficiência de recursos. Observo que tal afirmação, por si só, é capaz de ensejar as consequências jurídicas, para possibilitar o acolhimento do pedido, pois se presume verdadeira a alegação de insuficiência deduzida exclusivamente por pessoa natural. Cabe a parte contrária impugnar a alegação de insuficiência de recursos e não o Juiz “ex oficio” fazer tal impugnação, cabe apenas ao Juiz indeferir o pedido se houver nos autos elementos que evidenciem a falta dos pressupostos legais para a concessão de gratuidade. E mais, se comprovada a falsidade da declaração, ocorrerá a revogação do benefício e a parte arcará com as despesas processuais que tiver deixado de adiantar e pagará, em caso de má-fé, até o décuplo de seu valor a título de multa, que será revertida em benefício da Fazenda Pública estadual ou federal e poderá ser inscrita em dívida ativa. Frise-se que o benefício é concedido em caráter precário, pois se alterada sua situação financeira de modo que lhe permita arcar com as custas processuais e honorários advocatícios o benefício é cassado. Não é por outra razão que vencido o beneficiário, as obrigações decorrentes de sua sucumbência ficarão sob condição suspensiva de exigibilidade e somente poderão ser executadas se, nos 5 (cinco) anos subsequentes ao trânsito em julgado da decisão que as certificou, o credor demonstrar que deixou de existir a situação de insuficiência de recursos que justificou a concessão de gratuidade, extinguindo-se, passado esse prazo, tais obrigações do beneficiário. Registro, também, que diversa é a situação de quem necessita da assistência judiciária integral e gratuita e de quem necessita da gratuidade da judiciária ou justiça gratuita. A assistência jurídica é o gênero que tem como espécie a gratuidade judiciária. Fundamenta-se no art. 5º, inciso LXXIV, onde diz que “o Estado prestará assistência jurídica integral e gratuita aos que comprovarem insuficiência de recursos” (CAHALI, 2004, p. 28). Segundo Ruy Pereira Barbosa, a “assistência jurídica significa não só a assistência judiciária que consiste em atos de estar em juízo onde vem a justiça gratuita, mas também a pré-judiciária e a extrajudicial ou extrajudiciária. A assistência jurídica compreende o universo, isto é, o gênero” (1998, p. 62). Este instituto é matéria de ordem administrativa, pois está direcionado ao Estado para, através das Defensorias Públicas, dar advogado àqueles que não têm condições financeiras de contratar um causídico particular para defender seus interesses num processo judicial. No caso em espécie, não estamos tratando da assistência judiciária integral e gratuita, mas do benefício da justiça gratuita, que é bem mais restritivo quanto a sua abrangência. A gratuidade judiciária ou justiça gratuita é a espécie do gênero assistência jurídica, e refere-se à isenção todas as custas e despesas judiciais e extrajudiciais relativas aos atos indispensáveis ao andamento do processo até o seu provimento final. Engloba as custas processuais e todas as despesas provenientes do processo. Este instituto é matéria de ordem processual, haja vista que a gratuidade judiciária ou justiça gratuita está condicionada à comprovação pelo postulante de sua carência econômica, perante o próprio Juiz da causa, como está previsto no art. 5º, inciso LXXIV, da Constituição Federal, norma que deve ser interpretada em consonância com o § 3o do art. 99 do CPC/2015, que prescreve: “Presume-se verdadeira a alegação de insuficiência deduzida exclusivamente por pessoa natural.” Consigno que é desnecessário ser miserável, ou passar por situações vexatórias, ou ser o interessado obrigado a fazer prova negativa para ter reconhecido o seu direito a concessão gratuidade da justiça. Reitero que a lei determina o deferimento a quem carece de recursos para pagar as custas, as despesas processuais e os honorários advocatícios, mediante simples alegação de insuficiências de recursos. A lei não impõe nenhum outro requisito que não o de não possuir recursos para tais finalidades. Em que pese o atual Código de Processo Civil ter revogado os arts. 2º, 3º e 4º da Lei 1.060/1950, o teor quanto ao requisito para a concessão da gratuidade não restou alterado. É de se ressaltar que no caso em espécie estamos tratando do benefício à pessoa natural, cuja situação financeira, numa economia instável como a nossa, que lhe ceifa, constantemente, à capacidade de saldar despesas imediatas básicas como: alimentação, vestuário, assistência médica, afora gastos com água e luz. Saliente-se aqui, que mesmo se a condição econômica da pessoa natural interessada na obtenção da gratuidade da justiça for boa, mas se sua situação financeira for ruim ele tem direito ao benefício, pois são conceitos distintos o de situação econômica e o de situação financeira. Ressalto que, anteriormente, firmei meu entendimento no sentido de não nortear o direito à gratuidade da justiça, ancorado na conversão da renda do autor em número de salários mínimos. Todavia, diante da necessidade de se criar um parâmetro mais justo e objetivo para o deferimento do benefício da justiça gratuita, bem como visando adequar-me ao entendimento majoritário desta E. Nona Turma, passei a adotar o valor do teto salarial pago pelo INSS, atualmente fixado em R$ 7.087,22. Deixo consignado, entretanto, que tal regra comporta exceção, desde que a parte autora traga aos autos documentos demonstrando que sua situação financeira não permite arcar com eventual sucumbência. In casu, verifico ter o autor juntado aos autos a cópia da CTPS, que informa o exercício de atividades nas lides rurais nos anos de 2017 a 2018 (vínculo em aberto), percebendo o valor de R$ 6,71 por hora (ID 251525919 – págs. 07-08), e o extrato do sistema CNIS, que demonstra que o maior valor recebido das últimas remunerações nas lides rurais, no período de 03.2018 a 07.2021, foi a quantia de R$ 3.698,56, ressalvando-se, ainda, que a média salarial girou em torno de R$ 2.800,00 (ID 251525919 – págs. 33-34). Desse modo, sendo o valor da remuneração recebida pelo autor inferior ao valor considerado por esta E. Turma como parâmetro, é de rigor a concessão da justiça gratuita. Passo à análise das demais questões. CASO DOS AUTOS Considerando o pedido de desistência formulado pela parte autora (ID 251927379), inexiste qualquer óbice à sua homologação, porquanto tal pedido foi efetivado antes de expirado o prazo de resposta do requerido, não sendo necessária sua concordância, nos termos do art. 485, §4º, do CPC/2015. Reitere-se que sequer foi realizada a citação do requerido para apresentar a contestação, pelo que o seu prazo para resposta sequer se iniciou quando da desistência apresentada. Dispõe o art. 485, § 4º, do CPC/2015 que, depois de oferecida a contestação, não poderá o autor desistir da ação sem o consentimento do réu. No presente caso, vislumbra-se dos autos que a desistência foi formulada antes do oferecimento da contestação, motivo pelo qual cabível a homologação da desistência da medida cautelar, sem a necessidade do consentimento do requerido. A respeito da verba honorária, observa-se que a regra prevista no art. 90 do CPC/2015 é a de que os ônus sucumbenciais devem ser suportados pela parte que desistiu ou renunciou ao direito sobre o qual se funda a ação. Não obstante, verifica-se que a citação do requerido não foi efetivada nos autos, razão pela qual, não há como condenar a parte autora em honorários advocatícios, pois não houve a formação da relação processual. Pelo exposto, defiro a justiça gratuita, e homologo a desistência da medida cautelar inominada, extinguindo o processo sem julgamento do mérito, na forma do art. 485, VIII, do CPC/2015, e condeno a parte autora ao pagamento das custas processuais, com observância da concessão da justiça gratuita. Decorridos os prazos recursais sem manifestação das partes, certifique-se o trânsito em julgado e remetam-se os autos à Vara de Origem. Publique-se. Intimem-se. São Paulo, 24 de janeiro de 2022.