Publicacao/Comunicacao
Intimação - DESPACHO
RECURSO CÍVEL Nº 6047268-48.2024.4.06.3800/MG
RECORRENTE: ENZO HENRIQUE FERREIRA SIQUEIRA (AUTOR)
ADVOGADO(A): VALERIA NUNES GUIMARAES (OAB DF040007)
DESPACHO/DECISÃO
Trata-se de recurso inominado interposto pela parte autora contra a sentença de evento 34.1, que julgou improcedente o pedido de concessão/restabelecimento de BPC/LOAS deficiente.
Nos termos do art. 203, V, da Constituição Federal, o benefício assistencial, no valor de um salário mínimo mensal, é devido à pessoa com deficiência ou idosa que comprove não possuir meios de prover a própria subsistência nem de tê-la suprida por sua família.
Considera-se pessoa com deficiência, para fins de concessão do benefício assistencial, aquela que possui impedimento de longo prazo, com duração mínima de dois anos, de natureza física, mental, intelectual ou sensorial que, em interação com uma ou mais barreiras, possa obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas, consoante o disposto nos §§ 2º e 10 do art. 20 da Lei nº 8.742/1993.
A Súmula 48 da TNU estabelece que o conceito de pessoa com deficiência, que não se confunde necessariamente com a situação de incapacidade laborativa, exige a configuração de impedimento de longo prazo com duração mínima de 2 anos, a ser aferido no caso concreto, desde o início do impedimento até a data prevista para a sua cessação.
No caso concreto, não ficou comprovada a deficiência da parte autora.
De acordo com o laudo pericial de evento 21.1, o autor, 6 anos, menor impúbere, é portador de transtorno hipercinético com déficit de atenção (CID10: F90.0) e transtorno opositor desafiador (CID10: F91.3).
Contudo, a perita judicial atestou que as moléstias não tornam o autor incapaz para o exercício de atividades inerentes à sua idade, tampouco prejudicam o seu desenvolvimento físico e mental. Ressaltou que o menor possui as funções cognitivas bem preservadas, mantendo a capacidade de aprender, aplicar o conhecimento, resolver problemas e tomar decisões.
Afirmou ainda que é possível o controle dos sintomas e a superação de suas dificuldades mediante tratamento médico, acompanhamento psicológico e bom suporte psicopedagógico em ambiente escolar. Concluiu, assim, que o avaliado não cumpre os critérios legais de deficiência mental, apresentando apenas limitações restritas a poucas funções, o que afasta a caracterização de impedimento de longo prazo necessário à concessão do benefício.
Portanto, diante das conclusões periciais acima delineadas, verifica-se que o estado de saúde da parte autora não é condizente com o conceito legal de deficiência/impedimento de longo prazo, motivo pelo qual o benefício se mostra indevido, sendo desnecessária a análise da situação socioeconômica da parte.
Salienta-se que o perito oficial goza da confiança do juiz que o nomeia para tal encargo e, estando equidistante das partes, a desconstituição de suas inferências tem de ser fundamentada em lastro probante suscetível de alterar a formação do juízo de convicção do magistrado, o que não se verifica na situação em tela, ressaltando-se que os documentos médicos apresentados foram objeto de análise durante a realização do exame.
O laudo pericial, na hipótese, além de não evidenciar qualquer vício ou contradição capaz de justificar sua desconsideração, foi conclusivo e fundamentado, ainda que de modo conciso, prestando-se a responder às principais dúvidas necessárias à elucidação da causa, motivo pelo qual não há necessidade de novo exame ou maiores esclarecimentos.
Ressalta-se que eventuais documentos médicos juntados aos autos após a realização da perícia judicial não foram considerados para a formação do convencimento deste juízo, em razão da preclusão. Nada obsta, porém, que tais documentos sejam utilizados pela parte autora para instruir novo requerimento administrativo.
Recurso inominado desprovido, nos termos do artigo 12, inciso XII, da Resolução Presi 41/2024 do Tribunal Regional Federal da 6ª Região.
Condenação da parte recorrente ao pagamento de honorários advocatícios fixados em 10% sobre o valor da causa (art. 55 da Lei nº 9.099/95), ficando a execução suspensa em razão do deferimento da gratuidade da justiça.
Intimem-se. Nada sendo requerido, certifique-se o trânsito em julgado e encaminhem-se os autos ao Juízo de origem.
Juiz de Fora/MG, data da assinatura.
Juiz Federal Guilherme Fabiano Julien de Rezende
1º Relator