SPF COORDENADORIA DE PROCESSAMENTO DE FEITOS DE DIREITO PENAL
Classe
HABEAS CORPUS
Destinatários
2. TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE MINAS GERAIS (IMPETRADO), 1. ERIC SABIONI DE PAULA (IMPETRANTE)
Advogados
ERIC SABIONI DE PAULA (OAB 89948/MG), FABRICIO GOMES FERREIRA DE PAULA (OAB 98918/MG)
HC 1028829/MG (2025/0314230-7)RELATOR:MINISTRO ANTONIO SALDANHA PALHEIROIMPETRANTE:ERIC SABIONI DE PAULAADVOGADOS:ERIC SABIONI DE PAULA - MG089948FABRICIO GOMES FERREIRA DE PAULA - MG098918IMPETRADO:TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE MINAS GERAISPACIENTE:REGINALDO ESTEVÃOINTERESSADO:MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MINAS GERAIS
DECISÃO
Trata-se de habeas corpus com pedido liminar impetrado em favor de REGINALDO ESTEVÃO no qual se aponta como autoridade coatora desembargador do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais relator do Habeas Corpus n. 1.0000.25.313653-5/000.
Depreende-se dos autos que o Juízo da execução determinou a realização de exame criminológico para avaliar a possibilidade de concessão de progressão de regime em benefício do ora paciente (e-STJ fls. 253/254).
Impetrado habeas corpus na origem, a liminar foi indeferida pelo relator (e-STJ fls. 11/12).
Na presente impetração, a defesa afirma que não houve motivo idôneo para determinar a realização de exame criminológico, não se aplicando retroativamente, em prejuízo do apenado, as alterações promovidas pela Lei n. 14.483/2024 a condenações relativas a crimes cometidos antes da sua vigência.
Ao final, requer, liminarmente e no mérito, a concessão da ordem "para reconhecer a inaplicabilidade da Lei 14.843/24 ao caso concreto, por se tratar de norma penal mais gravosa, determinando à autoridade coatora (Juízo de Execuções de Ervália/MG) para que proceda à imediata análise da progressão de regime, sem condicionamento ao exame criminológico" (e-STJ fl. 10).
É o relatório.
Decido.
O presente writ investe contra decisão que indeferiu medida liminar em idêntico remédio impetrado perante o Tribunal de origem, o que, nos termos do disposto na Súmula n. 691 do Pretório Excelso, não se admite.
Ocorre que, no caso em exame, a teratologia está demonstrada, situação que autoriza a excepcional superação do referido entendimento sumular.
Inicialmente, transcrevo os fundamentos expostos pelo Juízo da execução para determinar a realização de exame criminológico a fim de avaliar o preenchimento do requisito subjetivo para a progressão de regime (e-STJ fl. 254):
[...] considerando que com a presente remição o reeducando alcança requisito objetivo para análise de progressão de regime, e segundo entendimento desse juízo de obrigatoriedade do exame criminológico como condição para aferir a baixa periculosidade necessária ao usufruto de regime mais brando, nos termos do art. 112, §1º, LEP, com a redação dada pela Lei nº 14.843, de 2024), oficie-se com urgência a Diretoria de Atenção à Saúde Mental e Avaliação Pericial – DAP solicitando agendamento de perícia médica, a fim de realizar exame criminológico no sentenciado.
Com a redação dada ao art. 112 da Lei n. 7.210/1984 pela Lei n. 10.792/2003, suprimiu-se a realização de exame criminológico como expediente obrigatório, mantendo-se apenas, como requisitos legais, o cumprimento de determinada fração da pena aplicada e o bom comportamento carcerário, a ser comprovado pelo diretor do estabelecimento.
Confira-se:
Art. 112. A pena privativa de liberdade será executada em forma progressiva com a transferência para regime menos rigoroso, a ser determinada pelo juiz, quando o preso tiver cumprido ao menos 1/6 (um sexto) da pena no regime anterior e ostentar bom comportamento carcerário, comprovado pelo diretor do estabelecimento, respeitadas as normas que vedam a progressão.
De fato, com o advento da Lei n. 14.843/2024, alterou-se novamente a redação do art. 112, § 1°, da Lei de Execuções Penais (LEP), a qual passou a estabelecer que, "em todos os casos, o apenado somente terá direito à progressão de regime se ostentar boa conduta carcerária, comprovada pelo diretor do estabelecimento, e pelos resultados do exame criminológico, respeitadas as normas que vedam a progressão".
Contudo, a nova legislação deve ser aplicada aos processos relativos a crimes praticados durante a sua vigência, o que não ocorre no caso concreto.
Nesse contexto, verifico a existência de constrangimento ilegal apto a ensejar a concessão da ordem, uma vez que, ao concluir pela necessidade de exame criminológico, o Juízo de primeira instância extrapolou as exigências legais para criar óbice ao benefício, levando em conta apenas a imposição de lei posterior à prática delitiva, sem invocar elementos concretos e recentes do curso da execução.
Dessa forma, não havendo circunstância que demonstre, efetivamente, a necessidade de realização de exame criminológico, deve ser reconhecida a ilegalidade da sua exigência.
Na mesma linha de raciocínio:
DIREITO PROCESSUAL PENAL. AGRAVO REGIMENTAL. HABEAS CORPUS SUBSTITUTIVO DE RECURSO PRÓPRIO. EXAME CRIMINOLÓGICO. AGRAVO DESPROVIDO.
[...]
III. Razões de decidir
5. A Lei nº 14.843/2024, que torna obrigatório o exame criminológico para progressão de regime, não pode ser aplicada retroativamente a condenações anteriores, pois se trata de novatio legis in pejus.
6. A decisão que exige exame criminológico deve ser fundamentada em elementos concretos da execução da pena, não sendo suficiente a gravidade abstrata do crime ou a probabilidade de reincidência.
7. A decisão agravada foi mantida por seus próprios fundamentos, uma vez que não foram apresentados argumentos aptos a ensejar a alteração da decisão.
IV. Dispositivo e tese
8. Agravo regimental desprovido.
[...]
(AgRg no HC n. 979.488/SP, relator Ministro Messod Azulay Neto, Quinta Turma, julgado em 18/3/2025, DJEN de 25/3/2025, grifei.)
DIREITO PENAL. AGRAVO REGIMENTAL. HABEAS CORPUS. PROGRESSÃO DE REGIME. EXAME CRIMINOLÓGICO. RETROATIVIDADE DE LEI PENAL MAIS GRAVOSA. AGRAVO REGIMENTAL NÃO PROVIDO.
[...]
III. Razões de decidir
5. A nova redação do art. 112, § 1º, da Lei de Execução Penal, introduzida pela Lei n. 14.843/2024, constitui novatio legis in pejus, pois adiciona um requisito mais gravoso para a progressão de regime, não podendo ser aplicada retroativamente.
6. A exigência de exame criminológico deve ser fundamentada em elementos concretos do comportamento do apenado durante a execução da pena, não sendo suficiente a gravidade abstrata dos crimes ou a longa pena a cumprir.
7. A decisão monocrática que concedeu a ordem de habeas corpus foi mantida, pois a aplicação retroativa da nova exigência legal seria inconstitucional e ilegal.
IV. Dispositivo e tese
8. Agravo regimental não provido.
[...]
(AgRg no HC n. 963.067/SP, relator Ministro Otávio de Almeida Toledo, Desembargador Convocado do TJSP, Sexta Turma, julgado em 19/3/2025, DJEN de 25/3/2025, grifei.)
RECURSO EM HABEAS CORPUS. PROGRESSÃO DE REGIME. EXAME CRIMINOLÓGICO. LEI N. 14.843/2024. NOVATIO LEGIS IN PEJUS. IMPOSSIBILIDADE DE APLICAÇÃO RETROATIVA. CASOS COMETIDOS SOB ÉGIDE DA LEI ANTERIOR. PRECEDENTES.
1. A exigência de realização de exame criminológico para toda e qualquer progressão de regime, nos termos da Lei n. 14/843/2024, constitui novatio legis in pejus, pois incrementa requisito, tornando mais difícil alcançar regimes prisionais menos gravosos à liberdade.
2. A retroatividade dessa norma se mostra inconstitucional, diante do art. 5º, XL, da Constituição Federal, e ilegal, nos termos do art. 2º do Código Penal.
3. No caso, todas as condenações do paciente são anteriores à Lei n. 14.843/2024, não sendo aplicável a disposição legal em comento de forma retroativa.
4. Recurso em habeas corpus provido para afastar a aplicação do § 1º do art. 112 da Lei de Execução Penal, com redação dada pela Lei n. 14.843/2024, determinando o retorno dos autos ao Juízo da execução para que prossiga na análise do pedido de progressão de regime.
(RHC n. 200.670/GO, relator Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, julgado em 20/8/2024, DJe de 23/8/2024, grifei.)
Ante o exposto, concedo a ordem para determinar ao Juízo da execução que aprecie o pedido de progressão de regime, dispensada a realização de exame criminológico, ressalvado se já realizado ou se houver motivo concreto que justifique a imposição de perícia.
Publique-se. Intimem-se.
Relator
ANTONIO SALDANHA PALHEIRO
Órgão
SECRETARIA JUDICIÁRIA
Classe
HABEAS CORPUS
Destinatários
2. TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE MINAS GERAIS (IMPETRADO), 1. ERIC SABIONI DE PAULA (IMPETRANTE)
Advogados
ERIC SABIONI DE PAULA (OAB 89948/MG), FABRICIO GOMES FERREIRA DE PAULA (OAB 98918/MG)
HC 1028829/MG (2025/0314230-7)RELATOR:MINISTRO ANTONIO SALDANHA PALHEIROIMPETRANTE:ERIC SABIONI DE PAULAADVOGADOS:ERIC SABIONI DE PAULA - MG089948FABRICIO GOMES FERREIRA DE PAULA - MG098918IMPETRADO:TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE MINAS GERAISPACIENTE:REGINALDO ESTEVÃOINTERESSADO:MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MINAS GERAISProcesso distribuído pelo sistema automático em 22/08/2025.
Órgão
SECRETARIA JUDICIÁRIA
Classe
HABEAS CORPUS
Destinatários
2. TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE MINAS GERAIS (IMPETRADO), 1. ERIC SABIONI DE PAULA (IMPETRANTE)
Advogados
ERIC SABIONI DE PAULA (OAB 89948/MG), FABRICIO GOMES FERREIRA DE PAULA (OAB 98918/MG)
HC 1028829/MG (2025/0314230-7)RELATOR:MINISTRO PRESIDENTE DO STJIMPETRANTE:ERIC SABIONI DE PAULAADVOGADOS:ERIC SABIONI DE PAULA - MG089948FABRICIO GOMES FERREIRA DE PAULA - MG098918IMPETRADO:TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE MINAS GERAISPACIENTE:REGINALDO ESTEVÃOINTERESSADO:MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MINAS GERAISProcesso distribuído pelo sistema automático em 21/08/2025.