SPF COORDENADORIA DE PROCESSAMENTO DE FEITOS DE DIREITO PRIVADO
Classe
CONFLITO DE COMPETÊNCIA
Destinatários
2. JUÍZO DE DIREITO DA VARA DE RECUPERAÇÃO JUDICIAL E FALÊNCIA DE VITÓRIA - ES (SUSCITADO), 1. SOORETAMA EMPREENDIMENTOS IMOBILIARIOS LTDA (SUSCITANTE), 3. JUÍZO DA VARA DO TRABALHO DE GUARAPARI - ES (SUSCITADO)
Advogados
PAULO VITOR FARIA DA ENCARNAÇÃO (OAB 33819/ES), JORDAN SANTOS RODRIGUES (OAB 34867/ES), ANGELO BRUNELLI VALERIO (OAB 14511/ES), CLAUDIO LUIS GOULART JUNIOR (OAB 20581/ES), RICARDO ANDRAUS (OAB 31177/PR), SAMUEL LIMA ROSA (OAB 34922/ES), ALEXANDRE CORREA NASSER DE MELO (OAB 38515/PR), RUDOLF JOÃO RODRIGUES PINTO (OAB 13469/ES), MÔNICA SILVA FERREIRA GOULART (OAB 13660/ES)
CC 224054/ES (2026/0385187-1)RELATORA:MINISTRA MARIA ISABEL GALLOTTISUSCITANTE:SOORETAMA EMPREENDIMENTOS IMOBILIARIOS LTDAADVOGADOS:PAULO VITOR FARIA DA ENCARNAÇÃO - ES033819JORDAN SANTOS RODRIGUES - ES034867SAMUEL LIMA ROSA - ES034922SUSCITADO:JUÍZO DE DIREITO DA VARA DE RECUPERAÇÃO JUDICIAL E FALÊNCIA DE VITÓRIA - ESSUSCITADO:JUÍZO DA VARA DO TRABALHO DE GUARAPARI - ESINTERESSADO:JORGE ZOUAINADVOGADOS:ANGELO BRUNELLI VALERIO - ES014511MÔNICA SILVA FERREIRA GOULART - ES013660CLAUDIO LUIS GOULART JUNIOR - ES020581INTERESSADO:CREDIBILITA ADMINISTRACAO JUDICIAL E SERVICOS LTDAINTERESSADO:J ZOUAIN E CIA LTDA FALIDAADVOGADOS:RICARDO ANDRAUS - PR031177ALEXANDRE CORREA NASSER DE MELO - PR038515RUDOLF JOÃO RODRIGUES PINTO - ES013469
DECISÃO
Trata-se de conflito positivo de competência, com pedido liminar, suscitado por SOORETAMA EMPREENDIMENTOS IMOBILIÁRIOS LTDA. (SUSCITANTE), em face do Juízo de Direito da Vara de Recuperação Judicial e Falência de Vitória/ES e do Juízo da Vara do Trabalho de Guarapari/ES (fls. 3-23).
A SUSCITANTE afirma que tramita, no Juízo de Vitória, o processo nº 5021811-25.2021.8.08.0024, no qual foi decretada a quebra de J. ZOUAIN & CIA. LTDA., com nomeação de administradora judicial, suspensão de atos expropriatórios e subsequentes deliberações no Juízo universal.
Alega que, por ocasião do decreto de falência datado de 1/12/2022, o juízo responsável oficiou, em 7/12/2022, à Justiça do Trabalho para suspender qualquer ato expropriatório de bens da massa e/ou dos sócios, afirmando a sua competência (Juízo universal).
Na ocasião, tendo em vista a disponibilidade de valores suficientes para pagamento integral dos credores extraconcursais, bem como dos trabalhistas, foi autorizado o correspondente pagamento mediante a instauração do Incidente para Pagamento de Credores nº 5043744-15.2025.8.08.0024 (fls. 38/43; 33/35; 42/43).
Aduz que, não obstante a mencionada falência, tramita, no Juízo Trabalhista de Guarapari/ES, uma execução trabalhista, em fase de cumprimento de sentença, nº 0000718-27.2023.5.17.0152, movida por diversos credores em desfavor da falida e seus sócios.
Pontua, ainda, que foi incluída neste cumprimento de sentença trabalhista por após o reconhecimento de fraude à execução, ocasião em que foram deferidas medidas executivas em face de seu patrimônio.
Destaca que o Juízo Trabalhista ressaltou a ausência de óbice ao prosseguimento da execução contra devedores subsidiários já inseridos no polo passivo.
Aponta, também, a expedição de certidões de habilitação em 31/8/2026 e pedidos pendentes de retenção mensal de aluguéis da qual é beneficiária.
Pede, em caráter liminar, a suspensão integral do cumprimento de sentença trabalhista em seu desfavor, bem como a prática de quaisquer atos de constrição direcionados ao seu patrimônio e, no mérito, o reconhecimento da competência do juízo universal para tratar da matéria.
Assim, delimitada a controvérsia, passo a decidir.
É certo que a jurisprudência deste Superior Tribunal de Justiça segue no sentido de que a decretação da falência atrai a competência do juízo universal para deliberar sobre atos constritivos e sobre a destinação do patrimônio da massa falida, em observância ao princípio da par conditio creditorum.
Nesse sentido:
AGRAVO INTERNO NOS EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NO CONFLITO DE COMPETÊNCIA
- JUÍZO FALIMENTAR - EXECUÇÃO TRABALHISTA - REALIZAÇÃO DE ATOS CONSTRITIVOS - COMPETÊNCIA DO JUÍZO UNIVERSAL - ESCÓLIO JURISPRUDENCIAL DA SEGUNDA SEÇÃO - INSURGÊNCIA DO AGRAVANTE.
1. É pacífica orientação da Segunda Seção no sentido de ser o Juízo onde se processa a falência o competente para examinar a manutenção e/ou eventual prosseguimento de atos de constrição/expropriação que incidam sobre o patrimônio de sociedade em processo falimentar ou de recuperação judicial. Precedentes.
1.1. A hipótese dos autos revela que o r. juízo laboral autorizou a realização de atos constritivos em face de patrimônio do ora suscitante sem observar que o r. juízo falimentar, em data anterior, tornou indisponível acervo patrimônio do insurgente, no bojo do pedido de desconsideração da personalidade jurídica em curso perante o r. juízo universal.
2. Agravo interno desprovido.
(AgInt nos EDcl no CC n. 206.006/SP, relator Ministro Marco Buzzi, Segunda Seção, julgado em 13/8/2025, DJEN de 19/8/2025.)
Ocorre, contudo, que das alegações trazidas pela SUSCITANTE em sua petição inicial, pode-se perceber que os atos de execução foram a ela direcionados pelo simples fato de que não está ela atingida pelos efeitos da decretação da falência de J. ZOUAIN & CIA. LTDA..
Em sendo assim, esta Corte também já possui entendimento pacífico no sentido de que, assim como a execução trabalhista não se suspende contra quem não é atingido pelos efeitos da recuperação judicial ou falência, a penhora de bens de terceiro não viola o juízo atrativo da falência, o que, por si só, afasta a configuração de conflito de competência.
Nesse sentido:
DIREITO PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO INTERNO. CONFLITO DE COMPETÊNCIA. DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA E JUÍZO FALIMENTAR. AGRAVO INTERNO DESPROVIDO.
I. CASO EM EXAME
1. Agravo interno interposto contra a decisão monocrática que não conheceu do conflito de competência por ausência de manifestação de ao menos dois juízos vinculados a tribunais diversos declarando-se competentes para julgar o incidente, bem como por inexistência de decisão do Juízo falimentar determinando a suspensão de execuções contra sócios ou a indisponibilidade de seus bens.
2. A controvérsia diz respeito a reclamação trabalhista em que se determinou a penhora de imóvel de ex-sócio de sociedade falida, com alegada necessidade de se instaurar o incidente de desconsideração e de se processar a execução no Juízo falimentar.
II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO
3. HÁ quatro questões em discussão: (i) saber se há pronunciamentos de ambos os Juízos aptos a configurar conflito positivo nos termos do art. 105, I, d, da Constituição Federal; (ii) saber se houve manifestação do Juízo falimentar sobre a desconsideração da personalidade jurídica, indicada nas fls. 170-171; (iii) saber se o precedente no CC n. 211.721/RS impõe o reconhecimento da competência do Juízo da 1ª Vara Cível de Sapiranga (RS); e (iv) saber se os arts. 82-A, parágrafo único, e 6º, § 7º-A, da Lei n. 11.101/2005, bem como o princípio par conditio creditorum, determinam o processamento do incidente e da execução no juízo universal.
III. RAZÕES DE DECIDIR
4. O art. 82-A da Lei n. 11.101/2005 não confere competência exclusiva ao juízo falimentar para desconsiderar a personalidade jurídica. Para caracterizar conflito, exige-se manifestação expressa do juízo falimentar sobre sua competência para julgar o incidente ou decisão que suspenda execuções contra sócios ou indisponibilize seus bens (CC n. 200.775/SP).
5. A penhora de bens de terceiro em reclamação trabalhista não viola o juízo atrativo da falência e, por si só, não configura conflito de competência (CC n. 208.157/RS).
6. A alegada manifestação do Juízo falimentar não atende aos critérios exigidos, ausentes invocação expressa de competência para o incidente ou ordem específica de suspensão/indisponibilidade. Sem esses elementos, permanece incabível o conhecimento do conflito.
7. A referência ao caso análogo (CC n. 211.721/RS) não afasta os óbices objetivos fixados se não demonstrados nos autos os requisitos de manifestações sobre competência ou ordens de suspensão/indisponibilidade.
8. O incidente de desconsideração decide apenas sobre a inclusão de terceiro como devedor e não compromete, por si só, a igualdade entre credores nem cria privilégio indevido, razão pela qual não há afronta ao princípio par conditio creditorum nem incidência dos arts. 82-A, parágrafo único, e 6º, § 7º-A, da Lei n. 11.101/2005 para atrair a competência do Juízo falimentar.
IV. DISPOSITIVO E
TESE
9. Agravo interno desprovido.
Tese de julgamento: "1. O art. 82-A da Lei n. 11.101/2005 não confere c ompetência exclusiva ao juízo falimentar; a configuração de conflito positivo exige manifestação expressa do juízo falimentar sobre sua competência para o incidente ou decisão que suspenda execuções contra sócios/indisponibilize seus bens. 2. A penhora de bens de terceiro em reclamação trabalhista não viola o juízo atrativo da falência e não caracteriza conflito de competência. 3. A ausência de requisitos objetivos afasta a aplicação de precedente invocado e mantém o não conhecimento do conflito. 4. O incidente de desconsideração não viola o princípio par conditio creditorum, não atraindo, por si só, a competência do juízo falimentar".
Dispositivos relevantes citados:
CF, art. 105, I, d; Lei n. 11.101/2005, arts. 82-A, parágrafo único, e 6º, § 7º-A.
Jurisprudência relevante citada: STJ, CC n. 200.775/SP; STJ, CC n. 208.157/RS; STJ, CC n. 211721/RS.
(AgInt nos EDcl no CC n. 214.625/RS, relator Ministro João Otávio de Noronha, Segunda Seção, julgado em 11/3/2026, DJEN de 16/3/2026.)
AGRAVO INTERNO NO CONFLITO DE COMPETÊNCIA. INTERPOSIÇÃO EM DUPLICIDADE. CONHECIMENTO APENAS DO PRIMEIRO RECURSO INTERPOSTO. PRINCÍPIO DA UNIRRECORRIBILIDADE. JUÍZO FALIMENTAR. JUÍZO TRABALHISTA. INEXISTÊNCIA DE CONTROVÉRSIA SOBRE A EXTENSÃO DA JURISDIÇÃO. ART. 66, DO CPC. INCIDENTE DE DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA INSTAURADO PELO JUÍZO TRABALHISTA. CABIMENTO. INTERPRETAÇÃO DADA AO ART. 82-A, DA LEI 11.101/2005. AUSÊNCIA DE COMPETÊNCIA EXCLUSIVA DO JUÍZO UNIVERSAL. PRECEDENTES. CONSTRIÇÃO DE BENS DE SÓCIO. NÃO CONFIGURAÇÃO DE CONFLITO. INEXISTÊNCIA DAS HIPÓTESES PREVISTAS NO ART. 66 DO CPC. AGRAVO NÃO PROVIDO.
1. O conflito de competência somente se instaura quando dois Juízos se declarem competentes ou incompetentes para processamento e julgamento de uma mesma demanda ou quando, por regra de conexão, houver controvérsia entre eles acerca da reunião ou separação dos processos.
2. A penhora de bens de terceiros não viola o juízo atrativo da falência e, consequentemente, não configura o pretendido conflito de competência.
3. A jurisprudência desta Segunda Seção estabeleceu interpretação ao art. 82-A e parágrafo único, da Lei nº 11.101/2005, no sentido de que a aludida norma não estabelece regra de competência exclusiva do Juízo universal para o julgamento do incidente de desconsideração da personalidade jurídica, mas sim norma disciplinadora de seu processamento e dos requisitos materiais para sua decretação, quando o incidente for instaurado no âmbito dos autos da falência.
Precedentes.
4. A desconsideração da personalidade jurídica por outros Juízos, por si só, não interfere no princípio da igualdade entre os credores, pois o referido incidente se limita a decidir sobre a inclusão de terceiro na lide, como devedor, não se imiscuindo nos elementos de satisfação da execução (formas de pagamento, a quem se deve pagar, os meios de sua extinção).
5. Conflito de competência que, por sua vez, não pode ser utilizado como sucedâneo recursal.
6. Não sendo a linha argumentativa suficiente para alteração do julgado, são improcedentes as razões recursais, mantendo-se, integralmente, a decisão agravada.
7. Agravo interno não provido.
(AgInt no CC n. 204.311/RS, relator Ministro Moura Ribeiro, Segunda Seção, julgado em 18/3/2025, DJEN de 21/3/2025.)
Diante desse cenário, não está configurado o conflito positivo de competência no presente caso.
Por fim, é importante destacar que o conflito de competência não pode ser utilizado como sucedâneo de recurso, visando questionar o acerto ou desacerto de decisão que redireciona o cumprimento de sentença trabalhista à pessoa estranha aos quadros da devedora falida.
Em face do exposto, não conheço do conflito.
Intimem-se.
Ministro
MARIA ISABEL GALLOTTI
Órgão
COORDENADORIA DE CLASSIFICAÇÃO E DISTRIBUIÇÃO DE PROCESSOS
Classe
CONFLITO DE COMPETÊNCIA
Destinatários
2. JUÍZO DE DIREITO DA VARA DE RECUPERAÇÃO JUDICIAL E FALÊNCIA DE VITÓRIA - ES (SUSCITADO), 1. SOORETAMA EMPREENDIMENTOS IMOBILIARIOS LTDA (SUSCITANTE), 3. JUÍZO DA VARA DO TRABALHO DE GUARAPARI - ES (SUSCITADO)
Advogados
PAULO VITOR FARIA DA ENCARNAÇÃO (OAB 33819/ES), JORDAN SANTOS RODRIGUES (OAB 34867/ES), ANGELO BRUNELLI VALERIO (OAB 14511/ES), CLAUDIO LUIS GOULART JUNIOR (OAB 20581/ES), RICARDO ANDRAUS (OAB 31177/PR), SAMUEL LIMA ROSA (OAB 34922/ES), ALEXANDRE CORREA NASSER DE MELO (OAB 38515/PR), MÔNICA SILVA FERREIRA GOULART (OAB 13660/ES)
CC 224054/ES (2026/0385187-1)RELATORA:MINISTRA MARIA ISABEL GALLOTTISUSCITANTE:SOORETAMA EMPREENDIMENTOS IMOBILIARIOS LTDAADVOGADOS:PAULO VITOR FARIA DA ENCARNAÇÃO - ES033819JORDAN SANTOS RODRIGUES - ES034867SAMUEL LIMA ROSA - ES034922SUSCITADO:JUÍZO DE DIREITO DA VARA DE RECUPERAÇÃO JUDICIAL E FALÊNCIA DE VITÓRIA - ESSUSCITADO:JUÍZO DA VARA DO TRABALHO DE GUARAPARI - ESINTERESSADO:JORGE ZOUAINADVOGADOS:ANGELO BRUNELLI VALERIO - ES014511MÔNICA SILVA FERREIRA GOULART - ES013660CLAUDIO LUIS GOULART JUNIOR - ES020581INTERESSADO:CREDIBILITA ADMINISTRACAO JUDICIAL E SERVICOS LTDAINTERESSADO:J ZOUAIN E CIA LTDA FALIDAADVOGADOS:RICARDO ANDRAUS - PR031177ALEXANDRE CORREA NASSER DE MELO - PR038515Processo distribuído pelo sistema automático em 08/09/2026.