SPF COORDENADORIA DE PROCESSAMENTO DE FEITOS DE DIREITO PENAL
Classe
HABEAS CORPUS
Destinatários
2. TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL (IMPETRADO), 1. FLAVIO AUGUSTO OLIVEIRA KARAM JUNIOR (IMPETRANTE)
Advogado
FLÁVIO AUGUSTO OLIVEIRA KARAM JÚNIOR (OAB 79159/RS)
HC 1053707/RS (2025/0456337-3)RELATOR:MINISTRO JOEL ILAN PACIORNIKIMPETRANTE:FLAVIO AUGUSTO OLIVEIRA KARAM JUNIORADVOGADO:FLÁVIO AUGUSTO OLIVEIRA KARAM JÚNIOR - RS079159IMPETRADO:TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SULPACIENTE:A DA S VINTERESSADO:MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
DECISÃO
Trata-se de habeas corpus, com pedido liminar, impetrado em benefício de A DA S V, contra acórdão proferido pelo TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL no julgamento da Apelação Criminal n. 5001532-68.2015.8.21.0023/RS.
Extrai-se dos autos que o paciente foi absolvido, em primeira instância, da prática do delito tipificado no art. 157, § 3º, in fine, c/c os arts. 14, inciso II, e 29, caput, todos do Código Penal - CP.
O Tribunal de origem deu provimento à apelação interposta pelo parquet estadual, para condenar o paciente às penas de 13 anos e 4 meses de reclusão, em regime inicial fechado, e ao pagamento de 10 dias-multa. Confira-se a ementa do julgado (fl. 50):
"APELAÇÃO CRIME. CRIMES CONTRA O PATRIMÔNIO. LATROCÍNIO TENTADO. IRRESIGNAÇÃO MINISTERIAL. Revelando os elementos probatórios coligidos que as vítimas caminhavam na via pública, juntamente com três outras pessoas, oportunidade em que dois indivíduos, tripulando uma motocicleta, por elas passaram, fizeram o retorno e detiveram a marcha do veículo, ocasião em que o acusado (estava na carona) desceu, de arma em punho, apontando-a em direção aos ofendidos, determinou a um desses a entrega de seus pertences e, efetivada a subtração, nele desferiu uma coronhada, bem assim determinou ao outro que entregasse o aparelho de telefonia móvel e, como não dispunha ele de tal bem, desferiu um tiro que o atingiu no rosto, caracterizado o crime de latrocínio tentado, mostrando-se impositiva solução condenatória. Sentença parcialmente reformada. Réu condenado. APELO PROVIDO."
No presente writ, a defesa sustenta nulidade dos reconhecimentos fotográfico e pessoal, por afronta ao art. 226 do Código de Processo Penal – CPP e à tese firmada no Tema Repetitivo n. 1.258 desta Corte, realizados sem observância das formalidades legais e com potencial contaminação da memória do reconhecedor.
Sustenta que o reconhecimento pessoal é inválido, pois o paciente foi colocado sozinho na sala de reconhecimento, em descompasso com o inciso II do art. 226 do CPP, circunstância confirmada pelas testemunhas e pela própria vítima em juízo.
Assevera ausência de provas independentes e cabais de autoria capazes de suplantar a irregularidade dos procedimentos de reconhecimento, apontando contradições nos depoimentos e inexistência de apreensão de objetos subtraídos ou arma em poder do paciente.
Argui que o reconhecimento de objeto (motocicleta) é inidôneo, porque a motocicleta do paciente sofreu acidente no mesmo dia, restando danificada e sem condições de rodagem, o que invalida a associação do veículo ao crime e reforça a contaminação da prova.
Defende que, declaradas as nulidades dos atos de reconhecimento, remanesce dúvida sobre a autoria, impondo-se a absolvição nos termos do art. 386, VII, do CPP.
Requer, em liminar, a suspensão do cumprimento da pena, com a consequente soltura do paciente até o julgamento do writ; e, no mérito, a concessão da ordem para declarar a nulidade dos reconhecimentos fotográfico e pessoal, com a absolvição do paciente. Subsidiariamente, pugna pela desconstituição do acórdão condenatório, para que outro seja proferido por julgadores diversos.
É o relatório.
Decido.
Diante da hipótese de habeas corpus substitutivo de recurso próprio, a impetração não deve ser conhecida, segundo orientação jurisprudencial do Supremo Tribunal Federal e do próprio Superior Tribunal de Justiça.
Ademais, a possibilidade de análise da matéria para eventual concessão da ordem de ofício não se mostra adequada ao presente caso.
Da atenta leitura do acórdão impugnado, verifica-se que o Tribunal de origem não se manifestou expressamente sobre a suposta nulidade dos reconhecimentos fotográfico e pessoal do paciente.
Desse modo, resta afastada a competência desta Corte Superior para conhecimento do feito, sob pena de incorrer em indevida supressão de instância.
Nesse sentido:
PENAL. PROCESSO PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. ILEGALIDADE INEXISTENTE. OMISSÃO DEVE SER QUESTIONADA VIA EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. SUPRESSÃO. AINDA QUE NULIDADE ABSOLUTA. DESÍGNIOS AUTONOMOS. ABSORÇÃO. REVOLVIMENTO FÁTICO-PROBATÓRIO. INVIABILIDADE NA VIA DO WRIT. AUSÊNCIA DE ARGUMENTOS NOVOS APTOS A ALTERAR A DECISÃO AGRAVADA. AGRAVO DESPROVIDO.
I - É assente nesta Corte Superior de Justiça que o agravo regimental deve trazer novos argumentos capazes de alterar o entendimento anteriormente firmado, sob pena de ser mantida a decisão agravada por seus próprios fundamentos.
II - Ainda que a Defesa alegue que houve o prequestionamento implícito, porquanto ventilou a questão nas peças de defesa, todavia, ante a não manifestação daquela Corte, caberia o manejo dos embargos de declaração, aptos a prequestionar a matéria.
III - Ausente manifestação do Tribunal sobre a questão de fundo também ora vindicada, incabível a análise de tal matéria, no presente habeas corpus, porquanto está configurada a absoluta supressão de instância quanto ao ponto debatido, ficando impedida esta Corte de proceder à sua análise.
IV - A instância ordinária, diante do conjunto fático-probatório dos autos, concluiu por provas suficientes à condenação pelos 2 (dois) delitos, como sendo autônomos, bem como a defesa não logrou demonstrar o contrário.
V - É iterativa a jurisprudência deste Superior Tribunal de Justiça no sentido de ser imprópria a via do habeas corpus (e do seu recurso) para a análise de teses de insuficiência probatória, de negativa de autoria ou até mesmo de desclassificação, em razão da necessidade de incursão no acervo fático-probatório.
Agravo regimental desprovido.
(AgRg no HC n. 823.044/DF, relator Ministro Messod Azulay Neto, Quinta Turma, julgado em 18/12/2023, DJe de 20/12/2023.)
AGRAVO REGIMENTAL EM HABEAS CORPUS. ROUBO CIRCUNSTANCIADO. WRIT IMPETRADO CONTRA CONDENAÇÃO TRANSITADA EM JULGADO. SUCEDÂNEO DE REVISÃO CRIMINAL. INADMISSIBILIDADE. AUSÊNCIA DE JULGAMENTO DE MÉRITO NESTA CORTE. INCOMPETÊNCIA DO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. TEMAS NÃO DEBATIDOS PELA CORTE DE ORIGEM. SUPRESSÃO DE INSTÂNCIA. TEMAS DEBATIDOS EM CONSONÂNCIA COM O ENTENDIMENTO DO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. AUSÊNCIA DE ILEGALIDADE FLAGRANTE.
1. Não deve ser conhecido o writ que se volta contra sentença condenatória já transitada em julgado, manejado como substitutivo de revisão criminal, em hipótese na qual não houve inauguração da competência desta Corte Superior. Nos termos do art. 105, I, e, da Constituição Federal, compete ao Superior Tribunal de Justiça processar e julgar, originariamente, as revisões criminais e as ações rescisórias de seus julgados. Precedentes.
2. A Jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça "é pacífica no sentido de que, ainda que se trate de matéria de ordem pública, é imprescindível o seu prévio debate na instância de origem para que possa ser examinada por este Tribunal Superior (AgRg no HC 530.904/PR, Rel. Ministro JORGE MUSSI, Quinta Turma, julgado em 24/9/2019, DJe de 10/10/2019) - (AgRg no HC n. 726.326/CE, Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, DJe 28/3/2022).
3. Quanto aos temas efetivamente debatidos pela Corte de origem, verifica-se que não há qualquer ilegalidade flagrante a ser sanada, na medida em que o acórdão objurgado se encontra em consonância com a jurisprudência desta Corte, no sentido de que as condenações alcançadas pelo período depurador de 5 anos, previsto no art. 64, inciso I, do Código Penal, afastam os efeitos da reincidência, mas não impedem a configuração de maus antecedentes, permitindo, assim, o aumento da pena-base; bem como de que para a incidência da causa de aumento relativa ao emprego de arma de fogo, dispensável a apreensão e perícia da arma, desde que o emprego do artefato fique comprovado por outros meios de prova. Precedentes.
3. Agravo regimental improvido.
(AgRg no HC n. 842.953/SP, relator Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, julgado em 6/2/2024, DJe de 8/2/2024.)
Ainda que assim não fosse, a presente impetração traz pedido idêntico ao formulado no REsp 2.117.650/RS, já analisado por esta Corte Superior, com trânsito em julgado certificado em 15/8/2025, e em ambos se ataca acórdão do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul na Apelação Criminal n. 5001532-68.2015.8.21.0023/RS.
Assim, diante de inadmissível reiteração de pedidos, resta obstaculizado o conhecimento deste mandamus também por este motivo.
Nesse sentido:
AGRAVO REGIMENTAL EM RECURSO ORDINÁRIO EM HABEAS CORPUS. FEMINICÍDIO QUALIFICADO E ABORTO PROVOCADO POR TERCEIRO TENTADOS. RECURSO ORDINÁRIO INTERPOSTO SEM PROCURAÇÃO. DEFICIÊNCIA NÃO SANADA EM SEDE DE AGRAVO REGIMENTAL. IMPOSSIBILIDADE DE SUPERAÇÃO DO ÓBICE PARA CONHECIMENTO DA MATÉRIA DE OFÍCIO. INEFICÁCIA DE EVENTUAL REGULARIZAÇÃO. OBJETO DO RECURSO QUE CONSISTE EM MERA REITERAÇÃO DE IMPETRAÇÃO ANTERIOR. PRISÃO DOMICILIAR PARA TRATAMENTO DE SAÚDE. AUSÊNCIA DE DEMONSTRAÇÃO DE ALTERAÇÃO QUE JUSTIFIQUE NOVO JULGAMENTO. AGRAVO REGIMENTAL QUE SE LIMITA A REPETIR AS ALEGAÇÕES PRÉVIAS. PRINCÍPIO DA DIALETICIDADE. INOBSERVÂNCIA. AGRAVO REGIMENTAL NÃO CONHECIDO.
1. Hipótese na qual não consta dos autos procuração outorgada ao patrono do agravante, o que, nos termos do enunciado n. 115 da Súmula desta Corte, torna inexistente o recurso. Ademais, embora apontada a ausência na decisão ora atacada, não houve a regularização com a interposição do agravo regimental.
2. Embora a jurisprudência desta Corte admita, em homenagem aos princípios da economia processual e da primazia da decisão de mérito, o afastamento, de ofício, de eventual ilegalidade patente, ou a concessão de prazo para a regularização do pressuposto de admissibilidade, nos termos do art. 76, caput, e art. 932, parágrafo único, do Código de Processo Civil, não é cabível, no caso, a apreciação do mérito do recurso, e também seria inócua a regularização do feito, eis que as alegações ora apresentadas consistem em mera reiteração de recurso prévio (RHC 185348/SP), cujo provimento foi negado em 11/9/2023 - ou seja, em data recente.
3. "A mera reiteração de pedido, que se limita a reproduzir, sem qualquer inovação de fato e/ou de direito, os mesmos fundamentos subjacentes a postulação anterior, torna inviável o próprio conhecimento da ação de habeas corpus". (AgRg no HC n. 190.293, Rel. Min. Celso de Mello, julgado em 20/10/2020, DJe 19/11/2020).
4. Ademais, o agravante se limitou a reproduzir as razões do recurso ordinário, sem impugnar especificamente a decisão agravada.
Todavia, "[...] a jurisprudência deste Superior Tribunal de Justiça orienta que o princípio da dialeticidade exige da parte a demonstração específica do desacerto da fundamentação no decisum atacado. Precedentes" (AgRg no HC n. 752.579/BA, Rel. Ministro JOÃO BATISTA MOREIRA (Desembargador Convocado do TRF1), Quinta Turma, DJe de 3/7/2023).
5. Agravo não conhecido .
(AgRg no RHC n. 186.154/SP, relator Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, julgado em 17/10/2023, DJe de 27/10/2023.)
Ante o exposto, com fundamento no art. 210 do Regimento Interno do Superior Tribunal de Justiça, indefiro liminarmente o presente habeas corpus.
Publique-se.
Intimem-se.
Relator
JOEL ILAN PACIORNIK
SECRETARIA JUDICIÁRIA
Classe
HABEAS CORPUS
Destinatários
2. TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL (IMPETRADO), 1. FLAVIO AUGUSTO OLIVEIRA KARAM JUNIOR (IMPETRANTE)
Advogado
FLÁVIO AUGUSTO OLIVEIRA KARAM JÚNIOR (OAB 79159/RS)
HC 1053707/RS (2025/0456337-3)RELATOR:MINISTRO JOEL ILAN PACIORNIKIMPETRANTE:FLAVIO AUGUSTO OLIVEIRA KARAM JUNIORADVOGADO:FLÁVIO AUGUSTO OLIVEIRA KARAM JÚNIOR - RS079159IMPETRADO:TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SULPACIENTE:ABNER DA SILVA VIANAINTERESSADO:MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SULProcesso distribuído pelo sistema automático em 18/11/2025.