Publicacao/Comunicacao
Intimação - sentença
SENTENÇA
APELANTE: MARIA DO SOCORRO SILVA QUEIROZ ADVOGADOS: JONH LENNO DA SILVA ANDRADE – OAB/PB N.º 26.712; VINICIUS QUEIROZ DE SOUZA - OAB/PB
APELADO: BRADESCO VIDA E PREVIDENCIA S.A ADVOGADOS: KARINA DE ALMEIDA BATISTUCI – OAB/SP N.º 178.033-A; PAULO EDUARDO PRADO - OAB/SP Ementa: DIREITO CIVIL E PROCESSUAL CIVIL. APELAÇÃO CÍVEL. RELAÇÃO DE CONSUMO. DESCONTOS INDEVIDOS EM BENEFÍCIO PREVIDENCIÁRIO. DECLARAÇÃO DE INEXISTÊNCIA DE NEGÓCIO JURÍDICO. REPETIÇÃO DE INDÉBITO EM DOBRO. DANOS MORAIS. INOCORRÊNCIA. AUSÊNCIA DE PROVA DE REPERCUSSÃO EXTRAPATRIMONIAL. HONORÁRIOS SUCUMBENCIAIS. MANUTENÇÃO DO PERCENTUAL. RECURSO DESPROVIDO. I. CASO EM EXAME 1. Apelação cível interposta contra sentença que julgou parcialmente procedente Ação Declaratória (de Inexistência/Nulidade de Negócio Jurídico) c/c Repetição de Indébito e Indenização por Danos Morais, para declarar a inexistência do negócio jurídico relativo a descontos sob a rubrica “BRADESCO VIDA E PREVIDÊNCIA” e condenar BRADESCO VIDA E PREVIDÊNCIA S.A. à restituição em dobro de R$ 92,84 (total de R$ 185,68), fixando honorários sucumbenciais em 10% sobre o valor atualizado da causa. A apelante requer condenação por danos morais (R$ 10.000,00) e majoração dos honorários para 20% do valor da causa. II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO 2. Há 2 questões em discussão: (i) definir se descontos indevidos, por serviço não contratado, configuram dano moral in re ipsa sem prova de repercussão extrapatrimonial; (ii) estabelecer se os honorários sucumbenciais fixados em 10% sobre o valor da causa devem ser majorados para 20% diante do trabalho desempenhado. III. RAZÕES DE DECIDIR 3. A inversão do ônus da prova na relação de consumo não afasta a necessidade de a parte autora apresentar prova mínima dos fatos constitutivos do direito alegado quanto ao dano moral. 4. A mera cobrança/desconto por serviço não contratado, sem ato restritivo de crédito e sem demonstração de constrangimento efetivo ou repercussão relevante na esfera extrapatrimonial, não gera dano moral indenizável automaticamente, exigindo prova do prejuízo moral. 5. A parte autora não comprova abalo concreto à honra, imagem ou estado emocional, limitando-se a alegar comprometimento de subsistência sem suporte probatório que evidencie sofrimento que ultrapasse meros dissabores. 6. Os honorários fixados em 10% sobre o valor da causa (R$ 10.185,68), resultando em aproximadamente R$ 1.018,57, remuneram de forma proporcional e adequada, especialmente porque superam o proveito econômico obtido com a condenação de repetição (R$ 185,68). 7. A controvérsia é matéria bancária repetitiva e de baixa complexidade, sem dilação probatória relevante, e o percentual adotado observa os critérios do art. 85, § 2º, do CPC. IV. DISPOSITIVO E TESE 8. Recurso desprovido. Tese de julgamento: 1. A cobrança ou desconto indevido por serviço não contratado, sem inscrição restritiva e sem prova de repercussão extrapatrimonial, não configura dano moral in re ipsa. 2. A fixação de honorários sucumbenciais em 10% sobre o valor da causa é adequada quando proporcional à complexidade da demanda e suficiente para remunerar dignamente o patrono, ainda que superior ao proveito econômico obtido. Dispositivos relevantes citados: CPC, art. 373, I; CPC, art. 85, § 2º. Jurisprudência relevante citada: STJ, EDcl no AgRg no AREsp 151.072/SP, Rel. Min. Maria Isabel Gallotti, 4ª Turma, j. 21.08.2018, DJe 11.09.2018; STJ, AgInt no REsp 1.251.544/RS, Rel. Min. Raul Araújo, 4ª Turma, j. 30.05.2019, DJe 21.06.2019; TJPB, Apelação Cível nº 0803688-45.2024.8.15.0181, Rel. Des. Aluizio Bezerra Filho, 2ª Câmara Cível, publ. 25.09.2024. RELATÓRIO
Acórdão - Poder Judiciário da Paraíba Gabinete 22 - Des. Carlos Eduardo Leite Lisboa ACÓRDÃO APELAÇÃO CÍVEL PROCESSO N.º: 0801063-17.2024.8.15.0091 ORIGEM: JUÍZO DA VARA ÚNICA DA COMARCA DE TAPEROÁ – PB RELATOR: DESEMBARGADOR CARLOS EDUARDO LEITE LISBOA
Trata-se de apelação cível interposta por MARIA DO SOCORRO SILVA QUEIROZ contra a sentença proferida pelo Juízo da Vara Única da Comarca de Taperoá, que julgou parcialmente procedente a Ação Declaratória (de Inexistência/Nulidade de Negócio Jurídico) c/c Repetição de Indébito e Indenização (por Danos Morais) ajuizada em desfavor de BRADESCO VIDA E PREVIDENCIA S.A. (Id. 40491251), declando a inexistência do negócio jurídico que originou os descontos sob a rubrica "BRADESCO VIDA E PREVIDENCIA" e condenou a instituição financeira a restituir, em dobro, a quantia de R$ 92,84 (totalizando R$ 185,68) e os honorários advocatícios sucumbenciais foram fixados em 10% sobre o valor atualizado da causa..A Apelante argumenta que o dano moral, no caso, é in re ipsa, decorrendo da própria conduta ilícita da Apelada, e que o valor dos honorários fixados é ínfimo e desonra o trabalho do advogado. Ao final, requer o provimento do recurso para reformar a sentença, com a condenação da Apelada ao pagamento de R$ 10.000,00 (dez mil reais) a título de danos morais e a majoração dos honorários para 20% sobre o valor da causa. Contrarrazões foram apresentadas pela parte apelada (Id. 13821817), pugnando pela manutenção integral da sentença, defendendo a inexistência de dano moral indenizável e a adequação dos honorários fixados em primeira instância. É o relatório. VOTO - Des. Carlos Eduardo Leite Lisboa - Relator Presentes os pressupostos extrínsecos e intrínsecos de admissibilidade, conheço da apelação interposta, passando à análise dos seus argumentos. MÉRITO A controvérsia devolvida à apreciação deste Órgão Colegiado diz respeito à negativa do pleito de indenização por danos morais e à necessidade de majoração dos honorários advocatícios sucumbenciais. Dos Danos Morais Em relação aos danos morais, importa destacar que a relação de consumo, na qual se opera a inversão do ônus da prova, não desonera a parte autora da comprovação mínima dos fatos constitutivos de seu direito com relação à indenização imaterial reivindicada. Acompanhando o entendimento jurisprudencial consolidado, entendo que tal reclame não encontra respaldo, pois a ausência de demonstração efetiva de constrangimento vivenciado ou de qualquer outra repercussão na esfera extrapatrimonial não configura dano moral in re ipsa. É imprescindível a prova do prejuízo moral suportado pelo consumidor, ônus probatório que competia à parte demandante, nos termos do art. 373, I, do CPC. Nesse sentido, o entendimento do STJ: A jurisprudência desta Corte é firme no sentido de que, inexistindo ato restritivo de crédito, a mera cobrança de valores por serviços não contratados não gera, por si só, danos morais indenizáveis. (EDcl no AgRg no AREsp 151.072/SP, Rel. Ministra MARIA ISABEL GALLOTTI, QUARTA TURMA, julgado em 21/08/2018, DJe de 11/09/2018). [...]. (grifou-se).(AgInt no REsp 1251544/RS, Rel. Ministro RAUL ARAÚJO, QUARTA TURMA, julgado em 30/05/2019, DJe 21/06/2019) E desta Corte de Justiça: APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DE REPETIÇÃO DE INDÉBITO E INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS. DESCONTOS INDEVIDOS. RELAÇÃO DE CONSUMO. CDC. DANOS MORAIS NÃO CONFIGURADOS. RECURSO DESPROVIDO. Aplicável o Código de Defesa do Consumidor (CDC) em casos que envolvem descontos indevidos realizados por instituições financeiras, com base na hipossuficiência do consumidor e na inversão do ônus da prova. A simples ocorrência de desconto indevido, sem que haja repercussões graves como constrangimento ou violação significativa dos direitos da personalidade, configura mero aborrecimento, insuficiente para a configuração de danos morais indenizáveis. (TJ-PB - APELAÇÃO CÍVEL: 08036884520248150181, Relator: Des. Aluizio Bezerra Filho, 2ª Câmara Cível, data da publicação: 25/09/2024) A compensação é devida apenas nos casos em que se verifica um abalo à vítima capaz de lhe causar dor que reflita em seu psíquico, a fim de evitar a banalização do instituto jurídico constitucionalmente assegurado. Na presente hipótese, a parte autora, ora apelante, limitou-se a narrar que os descontos indevidos em seu benefício previdenciário comprometeram sua subsistência, sem, contudo, produzir qualquer prova que demonstrasse repercussões lesivas à sua honra, imagem ou estado emocional, tampouco demonstrou sofrimento concreto que extrapolasse os meros dissabores da vida cotidiana. Desse modo, embora reconhecida a falha na prestação do serviço, tal fato, por si só, sem demonstração de qualquer outra repercussão na esfera extrapatrimonial, não configura dano moral "in re ipsa", porquanto é imprescindível a prova do prejuízo moral suportado pelo consumidor, inexistente na hipótese em exame. Sendo assim, deve ser mantida a sentença neste ponto. Dos Honorários De Sucumbência A sentença fixou os honorários em 10% do valor atualizado da causa. O valor da causa é de R$ 10.185,68 (dez mil cento e oitenta e cinco reais e sessenta e oito centavos) o que resulta em honorários de aproximadamente R$ 1.018,57 (mil e dezoito reais e cinquenta e sete centavos). Ao contrário do que defende a apelante, esse valor remunera de forma digna e justa o trabalho realizado pelo advogado. É fundamental observar que o valor dos honorários (R$ 1.018,57) supera o próprio benefício financeiro que a autora terá com a ação, que é a restituição de R$ 185,68. Ou seja, a verba honorária é mais de cinco vezes superior ao proveito econômico da cliente, o que afasta qualquer alegação de que o valor seja ínfimo ou desonroso. Além disso, o processo trata de matéria bancária repetitiva e de baixa complexidade, permitindo o uso de modelos e sem exigir dilação de provas ou tempo excepcional de dedicação. Assim, o percentual fixado respeita os critérios de proporcionalidade do art. 85, § 2º, do Código de Processo Civil.
Ante o exposto, NEGO PROVIMENTO À APELAÇÃO. Considerando que não houve condenação da parte apelante ao pagamento de honorários advocatícios na primeira instância, deixo de aumentar a verba nesta fase recursal, nos termos do art. 85, § 11, do CPC. É o voto. Certidão de julgamento e assinatura eletrônicas. João Pessoa, data do registro eletrônico. Des. Carlos Eduardo Leite Lisboa Relator