PODER JUDICIÁRIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO RIO GRANDE DO NORTE 3ª TURMA RECURSAL Processo: RECURSO INOMINADO CÍVEL - 0800652-51.2024.8.20.5129 Polo ativo ARTUR CESAR DA SILVA LIMA Advogado(s): ZACARIAS FELIPE DE MOURA LIMA Polo passivo CABO SERVICOS DE TELECOMUNICACOES LTDA Advogado(s): MAURICIO RODRIGUES GOMES FILHO RECURSO CÍVEL INOMINADO Nº 0800652-51.2024.8.20.5129 RECORRENTE(S): ARTUR CESAR DA SILVA LIMA ADVOGADO(S): JOSÉ ERIBERTO DA ROCHA JÚNIOR OAB/RN 6.956 RECORRIDO(S): CABO SERVIÇOS DE TELECOMUNICAÇÕES S.A ADVOGADOS: MAURICIO RODRIGUES GOMES FILHO OAB/SP –493.426 RELATOR: JUIZ PAULO LUCIANO MAIA MARQUES
EMENTA: RECURSO INOMINADO. DIREITO DO CONSUMIDOR. AÇÃO DECLARATÓRIA DE INEXISTÊNCIA DE DÉBITOS C/C INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS. INSCRIÇÃO INDEVIDA DE DÉBITO. EXISTÊNCIA DE ANOTAÇÕES ANTERIORES E LEGÍTIMAS. APLICAÇÃO DA SÚMULA 385 DO STJ. AUSÊNCIA DE DANO MORAL. EXCLUSÃO DO DÉBITO INDEVIDO REALIZADA NA VIA ADMINISTRATIVA.
SENTENÇA
MANTIDA. RECURSO CONHECIDO E DESPROVIDO.
ACÓRDÃO
Decidem os Juízes da Terceira Turma Recursal dos Juizados Especiais Cíveis, Criminais e da Fazenda Pública do Rio Grande do Norte, à unanimidade de votos, conhecer do recurso e negar provimento, mantendo a sentença por seus próprios fundamentos com os acréscimos do voto do Relator. Com condenação em custas processuais e honorários advocatícios, estes no percentual de 10% (dez por cento) sobre o valor da condenação, ficando suspensa a exigibilidade em razão dos benefícios da Assistência Judiciária Gratuita.
Além do relator, participaram do julgamento o juiz José Undário de Andrade e a juíza Welma Maria Ferreira de Menezes. Paulo Luciano Maia Marques Juiz Relator
RELATÓRIO
Trata-se de Recurso Inominado interposto por ARTUR CESAR DA SILVA LIMA em face de decisão proferida pelo Juízo do Juizado Especial Cível da Comarca de Natal/RN. A decisão recorrida julgou improcedente o pedido de indenização por danos morais formulado pelo recorrente. Nas razões recursais, o recorrente sustenta: (a) a configuração de dano moral in re ipsa em razão de inscrição indevida em cadastro de inadimplentes, conforme entendimento consolidado na jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça; (b) a razoabilidade e proporcionalidade do valor pleiteado de R$ 7.000,00, a título de danos morais, considerando o caráter punitivo-pedagógico da indenização e os parâmetros usualmente fixados em casos semelhantes; (c) a aplicação dos juros moratórios a partir da citação, nos termos do art. 405 do Código Civil, e da correção monetária desde a data do arbitramento, conforme a Súmula 362 do Superior Tribunal de Justiça.
Ao final, requer o provimento do recurso para julgar procedente a pretensão e condenar a recorrida ao pagamento do valor pleiteado. Em contrarrazões, a parte recorrida, sustenta: (a) a inexistência de ato ilícito ou conduta que configure dano moral, afastando a responsabilidade da recorrida; (b) a fixação do quantum indenizatório, caso reconhecida a responsabilidade, no valor máximo de R$ 1.000,00, com aplicação dos juros moratórios e correção monetária a partir da data do arbitramento, em conformidade com a Súmula 362 do Superior Tribunal de Justiça; (c) a condenação do recorrente ao pagamento de custas e honorários advocatícios no percentual de 20% sobre o valor corrigido da causa, nos termos do art. 55 da Lei nº 9.099/95.
Ao final, requer a improcedência do recurso.
É o relatório.
VOTO
Defiro o pedido de justiça gratuita, ante a presunção de hipossuficiência da pessoa física (CPC, arts. 98 e 99). Presentes os pressupostos de admissibilidade, conheço do recurso. O cerne da presente demanda se insere no contexto das relações de consumo, nos termos do art. 3º, § 2º, do Código de Defesa do Consumidor, devendo as normas consumeristas ser aplicadas ao caso. A controvérsia cinge-se em torno da existência de dano moral decorrente de uma suposta anotação irregular em cadastro de restrição ao crédito.
Verificada a inscrição indevida do nome da recorrente nos cadastros de restrição ao crédito, impõe-se a análise da existência de dano moral passível de compensação. Em se tratando de dano moral decorrente de anotação irregular de restrição ao crédito, em regra, a comprovação do abalo sofrido não é necessária, ressalvando-se o caso de preexistência de restrições creditícias em nome do recorrente, circunstância na qual se deve analisar a submissão do caso à Súmula 385 do STJ.
Na espécie, como bem observado pelo juízo sentenciante, a documentação anexada aos autos (ID 32757020) comprova que o nome da recorrente já constava em cadastros de restrição ao crédito antes do fato gerador da presente demanda. Portanto, a inscrição supostamente indevida não configura, por si só, um novo abalo à honra da recorrente. Dessa maneira, conforme decidido pelo Juízo sentenciante e nos termos da Súmula 385 do STJ, ausente o dever de indenizar ante a existência de inscrições anteriores, vejamos: Da anotação irregular em cadastro de proteção ao crédito, não cabe indenização por dano moral, quando preexistente legítima inscrição, ressalvado o direito ao cancelamento.
Nesse sentido, destaco, ainda, precedentes desta Turma Recursal em casos semelhantes, vejamos:
EMENTA: RECURSO INOMINADO. DIREITO DO CONSUMIDOR. AÇÃO DECLARATÓRIA DE INEXISTÊNCIA DE DÉBITOS C/C INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS. INSCRIÇÃO INDEVIDA DE DÉBITO. NÃO COMPROVAÇÃO DA RELAÇÃO JURÍDICA. FALHA NA PRESTAÇÃO DO SERVIÇO. INSCRIÇÕES ANTERIORES EM CADASTRO RESTRITIVO DE CRÉDITO. SÚMULA 385 DO STJ.
SENTENÇA
DE PELA IMPROCEDÊNCIA. IRRESIGNAÇÃO DA PARTE AUTORA. ALEGAÇÃO DE INAPLICABILIDADE DA SÚMULA 385 DO STJ. RECURSO CONHECIDO E NÃO PROVIDO. (RECURSO INOMINADO CÍVEL, 0810670-21.2024.8.20.5004, Magistrado(a) CLEANTO ALVES PANTALEAO FILHO, 3ª Turma Recursal, JULGADO em 19/11/2024, PUBLICADO em 19/11/2024)
EMENTA: RECURSO INOMINADO. DIREITO DO CONSUMIDOR. CESSÃO DE CRÉDITO. ÔNUS DA PROVA. AUSÊNCIA DE DEMONSTRAÇÃO DE CONTRATAÇÃO VÁLIDA. NÃO COMPROVAÇÃO DA RELAÇÃO JURÍDICA. INSCRIÇÃO INDEVIDA EM CADASTRO DE INADIMPLENTES. FALHA NA PRESTAÇÃO DE SERVIÇO CONFIGURADA.
SENTENÇA
DE PROCEDÊNCIA. IRRESIGNAÇÃO DA PARTE RÉ. INSCRIÇÃO PREEXISTENTE. APLICAÇÃO DA SÚMULA 385 DO STJ. DANOS MORAIS NÃO CONFIGURADOS. RECURSO CONHECIDO E PARCIALMENTE PROVIDO. (RECURSO INOMINADO CÍVEL, 0802029-81.2024.8.20.5121, Magistrado(a) CLEANTO ALVES PANTALEAO FILHO, 3ª Turma Recursal, JULGADO em 05/11/2024, PUBLICADO em 07/11/2024) Por fim, cumpre salientar que o débito indevido foi prontamente retirado dos registros do SERASA, desconstituindo o valor de R$ 203,60, gerado por um erro sistêmico, conforme demonstrado pela gestão administrativa nº 20.***.***/6518-51 (ID 32757013).
Incabível, por conseguinte, qualquer tipo de reforma na sentença recorrida. Nela fora implementada correta análise do conjunto probatório contido nos autos, além de ser conferido tratamento jurídico adequado à matéria.
Ante o exposto, conheço do recurso e nego-lhe provimento, mantendo a sentença, nos termos do voto do relator. Condeno o recorrente ao pagamento das custas processuais e dos honorários advocatícios sucumbenciais, estes no percentual de 10% (dez por cento) sobre o valor atualizado da causa, suspendendo sua cobrança em razão da concessão do benefício da justiça gratuita, na forma do art. 98, § 3º, do CPC.
É o voto. Natal/RN, na data de registro do sistema Paulo Luciano Maia Marques Juiz relator Natal/RN, 14 de Outubro de 2025.